Hospital desarmado: guias para travar declínio de idosos largamente ignorados por profissionais

2 de Fevereiro 2026

Um estudo da Universidade de Aveiro conclui que a maioria dos profissionais de saúde inquiridos desconhece ou não aplica as diretrizes internacionais para prevenir a perda de autonomia física dos idosos durante os internamentos, um problema que onera o sistema e agrava-se com o envelhecimento da população

A questão central, dizem os investigadores, está na iatrogenia. O termo, por vezes obscuro fora dos círculos clínicos, designa aqui o dano colateral: a perda de capacidades funcionais em pacientes idosos, desencadeada não pela doença original, mas pela própria hospitalização, pela imobilidade a que muitas vezes são confinados e pela complexidade dos regimes medicamentosos. O projeto STOP-IATRO, que deu corpo ao estudo, quis aferir se as recomendações da Organização Mundial de Saúde para combater este fenómeno silencioso tinham eco nos hospitais. A resposta, obtida através de inquéritos a 64 profissionais da Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro (ULS RA), foi crua.

Os números falam por si. Um total de 84% dos inquiridos admitiu não seguir as orientações da OMS concebidas para manter os idosos autónomos. Pior ainda, 82% confirmou não utilizar sequer escalas validadas para avaliar a função física dos doentes ao longo do internamento, o que significa que o seu declínio pode passar despercebido até ser irreversível. Esta cegueira perante o estado funcional real dos pacientes acontece num país com o segundo índice de envelhecimento mais elevado da União Europeia, um contexto que transforma a falha preventiva num problema de saúde pública de custos avultados.

Maria Teresa Herdeiro, investigadora envolvida no trabalho, sublinha o paradoxo. Cerca de 41% dos profissionais reconheceu que uma fatia significativa dos eventos adversos relacionados com medicamentos seria evitável. E quase todos, 92%, mostraram interesse em receber formação específica sobre o tema. Há, portanto, consciência da magnitude do problema e vontade de fazer melhor, mas um hiato evidente entre o saber e a prática clínica quotidiana. A desconexão, sugere o estudo, radica na ausência de integração destes protocolos preventivos nos fluxos de trabalho habituais do Serviço Nacional de Saúde.

As conclusões já começaram a ter algum desdobramento prático, ainda que incipiente. Foram realizados workshops para cerca de 80 profissionais, e estão planeadas ações de literacia para a população geral. O caminho, defendem os autores, terá de passar por uma restruturação que torne a avaliação e a preservação da função física um pilar tão rotineiro nos cuidados ao idoso quanto a monitorização de parâmetros vitais. Sem essa mudança, os hospitais continuarão, inadvertidamente, a trocar uma condição aguda por uma incapacidade duradoura.

PR/HN/MM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

VMER de Bragança celebra duas décadas de emergência médica no distrito

A Viatura Médica de Emergência e Reanimação de Bragança assinala 20 anos de atividade a 11 de março com um debate e formação em suporte básico de vida dirigida à comunidade escolar. As comemorações incluem a participação de profissionais que integram a equipa desde a implementação do serviço no distrito

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights