Restrição Calórica Potencia Quimioterapia em Sarcomas, Revela Estudo Luso-Brasileiro

2 de Fevereiro 2026

Uma redução controlada na ingestão de calorias pode aumentar significativamente a eficácia da quimioterapia no tratamento de sarcomas, tumores raros. Investigação internacional demonstrou, em modelos animais, que este protocolo reduz volume tumoral e protege células saudáveis dos danos do tratamento

Um estudo internacional, coordenado pela Unidade de Investigação RISE Health em Portugal e pela Universidade Federal do Piauí no Brasil, trouxe novas revelações sobre a relação entre nutrição e oncologia. A investigação, publicada na revista especializada Cancers, focou-se no impacto de uma redução de 40% no consumo calórico durante o tratamento de sarcomas com doxorrubicina, um agente quimioterápico comum.

Os resultados, obtidos em modelo experimental, indicam que a restrição calórica, aplicada em curtos períodos, criou um ambiente metabólico hostil para o tumor. “Induziu um profundo stress metabólico no microambiente tumoral”, lê-se no artigo, comprometendo processos biológicos essenciais para a progressão da doença. Essa privação energética tornou as células cancerígenas mais vulneráveis à ação da quimioterapia.

Moisés Tolentino Bento da Silva, investigador da RISE Health associado ao ICBAS-UP, explicou que o mecanismo se baseia na dependência energética do tumor. “Quanto maior for a energia consumida, mais o cancro se desenvolve. Com a redução do consumo calórico, conseguimos reduzir o aporte energético para o tumor”, afirmou. Esta abordagem não só potenciou a inibição do crescimento tumoral como, de forma notável, pareceu exercer um efeito protector nos tecidos saudáveis, mitigando lesões no ADN provocadas pela quimioterapia.

Os dados vão mais além, sugerindo uma reprogramação do metabolismo lipídico. A restrição calórica reduziu os níveis de colesterol e triglicéridos, que funcionam como combustível para a proliferação de células malignas. Este achado pode ter implicações mais vastas, abrindo um flanco de investigação para outras patologias crónicas ligadas ao metabolismo, como a diabetes ou doenças cardiovasculares.

A equipa, liderada por Silva em Portugal e por Francisco Leonardo Torres-Leal no Brasil, sublinha que estas descobertas, ainda que promissoras, derivam de um estudo pré-clínico. A transposição para a prática clínica humana exigirá nova investigação. No entanto, o trabalho reforça a noção, cada vez mais consolidada, de que os hábitos de vida são um coadjuvante terapêutico relevante. Paralelamente à dieta, a prática de exercício físico adaptado é apontada como um modulador positivo dos efeitos secundários dos tratamentos, melhorando a qualidade de vida dos doentes em múltiplas fases.

O estudo está disponível para consulta na íntegra através do link: https://www.mdpi.com/2072-6694/16/5/1155. Para mais informações sobre a Unidade RISE Health, consulte: https://rise-health.pt/

 

PR/HN/MM

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