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O anúncio foi feito esta segunda-feira pelos coordenadores da equipa, numa sala onde a tensão expectante se dissipava em relatos técnicos carregados de um humanismo contido. A peculiar circunstância da doação — uma mulher que, ao requerer a eutanásia, expressou o desejo específico de doar o seu rosto — proporcionou uma janela de coordenação rara. “Pudemos sentar-nos com os engenheiros e, com modelos de software, planear as melhores opções de reconstrução e adaptação das estruturas ósseas para conseguir a melhor função possível”, explicou Joan-Pere Barret, chefe da unidade de cirurgia plástica e queimados. A calma na sua voz não escondia completamente a profundidade do momento vivido. A possibilidade de planear meticulosamente com a doadora viva, utilizando tecnologias de imagem 3D, afastou as limitações impostas pela urgência típica das colheitas post-mortem. Barret recordou a “grande felicidade” da doadora ao saber que o seu pedido seria possível, num instante que descreveu como de “magnitude tremenda ao nível emocional”.
Do outro lado deste processo esteve Carme, a receptora, que compareceu perante os jornalistas apenas com o seu primeiro nome. A sua vida fora confinada pela sequela de uma infeção bacteriana agressiva que desfigurara o seu rosto, um estigma que a impedia de ações simples como comer com normalidade ou tomar um café num espaço público. A sua respiração era laboriosa. “Já começo a comer, posso falar, tenho sensibilidade na zona do transplante”, afirmou, com uma voz clara mas emocionada. A sua exposição foi breve, pontuada por uma gratidão prática. Agora, submete-se a fisioterapia para aprimorar a mobilidade facial e antevê, no espaço de um ano, retomar uma normalidade que julgara perdida.
O Vall d’Hebron, palco do primeiro transplante total de face bem-sucedido em 2010, reafirma assim a sua vanguarda numa das fronteiras mais delicadas da cirurgia reconstrutiva. Barret insistiu na complexidade inerente a estes procedimentos, que ultrapassam a mera estética: “Um transplante de cara que não se sente nem se mexe não é mais do que uma máscara”. O sucesso depende da microconexão de vasos e nervos, com diâmetros muitas vezes inferiores a um milímetro. A legislação espanhola, que prevê a doação de órgãos em contexto de eutanásia, foi escrupulosamente seguida, não havendo qualquer contacto entre a doadora e a família receptora. O caminho que levou da vontade explícita de uma mulher à restituição da face de outra traça um novo mapa de possibilidades, tão técnico quanto profundamente humano, e deixa a comunidade médica a reflectir sobre um paradigma inédito de planeamento cirúrgico.
NR/HN/Lusa



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