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O dispositivo, batizado de Autonomous, é uma criação da Associação Fraunhofer Portugal Research, do Porto, e foi cocriado com pessoas que vivem com a condição. A ideia parece simples, mas o seu desenvolvimento foi meticuloso: trata-se de uma rede de sensores e uma pequena unidade computacional, instalada na habitação do utilizador, que trabalha em conjunto com um smartwatch. A combinação monitoriza atividades e ambientes, enviando lembretes discretos para a pessoa, seja para tomar medicação, desligar o fogão ou fechar uma torneira. A privacidade dos dados é uma premissa, garantem os investigadores, pois toda a informação é processada localmente, dentro de casa, sem depender de nuvens externas.
Ricardo Graça e Ana Vasconcelos, coordenadores do projeto, explicam que o objetivo central é preservar a rotina e a confiança. “Mantendo o controlo sobre o seu dia a dia, a pessoa vê o seu bem-estar emocional e autoestima potenciados”, referem. Os benefícios, acrescentam, estendem-se ao estímulo mental, à saúde física e, de forma nada despicienda, à manutenção dos laços sociais, pois ao prolongar a permanência no próprio lar, mantém-se a ligação à comunidade local, a amigos e vizinhos.
O percurso do Autonomous envolveu parcerias com a Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, e a LUMA School of Arts, da Bélgica, mas o seu coração esteve sempre no contacto direto com os destinatários. Foram mais de 150 pessoas, entre pessoas com diagnóstico de demência, familiares, cuidadores e profissionais de saúde, em Portugal, Bélgica e Itália, que participaram no desenho e refinamento da solução. Testes-piloto em domicílios reais geraram feedback positivo, com alguns participantes a pedirem para continuar a usar o sistema após o término do estudo, um detalhe que os cientistas mencionam com particular satisfação.
Em termos de futuro, a equipa não pretende patentear a tecnologia. “Estamos a torná-la de código aberto porque acreditamos que deve servir a comunidade e permitir a melhoria coletiva nos cuidados à demência”, afirmam. O modelo de negócio considerado mais viável, por agora, passa pelo licenciamento a instituições de apoio domiciliário, dado que os custos de produção ainda são elevados para o mercado doméstico. Contudo, o horizonte ambicionado é outro: “O nosso objetivo a longo prazo é continuar a reduzir o preço para que, eventualmente, o possamos tornar amplamente disponível e acessível para uso doméstico pelas famílias”.
O Prémio Longitude Demência, que distingue soluções tecnológicas cocriadas para as fases iniciais da demência, é financiado pela Alzheimer’s Society britânica e pela agência de inovação do Reino Unido, Innovate UK. Cada um dos cinco finalistas, que inclui projetos do Reino Unido, Estados Unidos e Austrália, recebeu anteriormente 345 mil euros para desenvolver o seu protótipo. A decisão final caberá a um júri internacional, numa cerimónia agendada para o Museu do Design de Londres.
NR/HN/Lusa



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