![]()
A realidade oncológica portuguesa espelha, com contornos próprios, as tendências preocupantes identificadas a nível europeu. Dados do Relatório Analítico do Registo Europeu de Desigualdades no Cancro colocam a tónica no aumento da incidência entre os mais jovens, num contexto de subutilização de ferramentas críticas de diagnóstico precoce. Entre 2000 e 2022, a taxa de incidência padronizada por idade de cancro da mama em mulheres portuguesas dos 15 aos 49 anos aumentou 16,3 por 100.000, um dos aumentos mais acentuados entre os países analisados, situando-se agora nos 67,8 casos por 100.000. O cancro da tiroide na mesma faixa etária também registou um crescimento acentuado.
Estes números alimentam uma preocupação transversal expressa no documento: “Diagnósticos em idades mais jovens significam que os pacientes terão de enfrentar mais anos de tratamento e monitorização, exercendo uma pressão sustentada nos sistemas de saúde”. Uma pressão que em Portugal se desdobra, já que o país enfrenta simultaneamente o desafio de melhorar a adesão aos programas de rastreio populacional. Com uma taxa de participação no rastreio colorretal de apenas 9%, Portugal situa-se no extremo mais baixo da tabela europeia, muito distante de países como a Finlândia (74%). Esta baixa cobertura é particularmente relevante porque o rastreio é determinante para reduzir diagnósticos tardios e via serviços de urgência, associados a piores prognósticos.
O relatório, que resulta de uma colaboração entre a OCDE e a Comissão Europeia, assinala que Portugal é um dos países onde os custos diretos do cancro mais cresceram desde 1993, acompanhando uma tendência de convergência nos gastos entre os estados-membros. O sistema de saúde português, como os seus congéneres europeus, vê-se assim confrontado com a necessidade de fazer mais com recursos limitados. Neste capítulo, é destacada uma medida concreta: a eliminação das taxas moderadoras para serviços relacionados com o cancro, uma política que visa remover barreiras financeiras no acesso aos cuidados.
A nível clínico, são notadas variações na prática, com espaço para melhoria na harmonização de procedimentos. Portugal é mencionado no contexto de pilotos para o rastreio do cancro do pulmão, uma área em evolução. O país é também referenciado pela expansão de cirurgias de mastectomia em regime de dia, uma prática que aumenta a eficiência sem comprometer a qualidade.
O documento traça um cenário complexo para as próximas décadas. As projeções indicam que o envelhecimento da população portuguesa contribuirá para um aumento substancial da despesa per capita com cancro. Este facto, aliado ao aumento da incidência em idades ativas, coloca em foco a necessidade de políticas robustas de integração laboral e apoio socioeconómico aos doentes. A conclusão subjacente é a de que o caminho para um sistema de alto valor em oncologia em Portugal passará inevitavelmente por uma aposta redobrada na prevenção, no diagnóstico precoce e na eficiência dos cuidados, tentando colmatar as falhas de acesso que ainda persistem.
Referência bibliográfica:
OECD/European Commission (2026), Delivering High Value Cancer Care: European Cancer Inequalities Registry Analytical Report, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/060869fe-en.
ISBN: 978-92-64-69820-8 (print), 978-92-64-77628-9 (PDF), 978-92-64-87303-2 (HTML)
União Europeia: 978-92-68-36308-9 (print), 978-92-68-36303-4 (PDF)
PR/HN/MM



0 Comments