Cheias expõem falhas no sistema de saúde e elevam número de vítimas indiretas

3 de Fevereiro 2026

O Conselho Português para a Saúde e o Ambiente alerta que os temporais provocaram danos graves em hospitais e centros de saúde, com encerramentos e adiamentos de cuidados. A organização considera a resposta das autoridades inadequada e avisa que o total de vítimas ultrapassa largamente as contabilizadas como diretas

O mau tempo que tem assolado o país, com especial incidência nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém, está a gerar uma crise paralela no setor da saúde. O Conselho Português para a Saúde e o Ambiente (CPSA) veio hoje a público denunciar o que classifica como uma resposta “claramente inadequada” por parte das autoridades, num cenário em que os serviços de saúde sofreram golpes severos. A depressão Kristin, responsável por dez mortes diretas, está agora a revelar um rasto mais largo e insidioso de consequências.

Luís Campos, presidente do CPSA, não poupa críticas. “Os efeitos nos serviços de saúde resultam de danos estruturais, falhas no abastecimento de água e eletricidade, dificuldades de acesso às unidades e insuficiência de profissionais”, afirmou, em comunicado. Esta conjugação de fatores levou, na prática, à “inoperância total ou parcial de múltiplos estabelecimentos”. Campos fez questão de sublinhar um ponto que considera crucial e pouco visível: os problemas de saúde pública associados às inundações fazem com que o número total de vítimas “seja seguramente muito superior” ao das vítimas diretas que a comunicação social tem dado conta.

O retrato que a organização traça é de um sistema sob tensão, com falhas em cadeia. No Hospital da Figueira da Foz, o bloco operatório foi obrigado a encerrar. Em Leiria, o hospital público viu consultas e cirurgias serem adiadas, numa correria para adquirir geradores de emergência. Já o privado Hospital CUF Leiria esteve simplesmente fechado durante vários dias. A situação nos centros de saúde não foi melhor. Em Fátima e na Batalha, a falta de água e luz forçou a transferência de vacinas para unidades hospitalares, num processo delicado e arriscado. O centro de saúde de Alvaiázere, por seu lado, ficou praticamente destruído.

Num detalhe que espelha prioridades contestáveis, o CPSA relata que, em algumas situações, o fornecimento de gasóleo foi direcionado para supermercados, deixando os centros de saúde numa situação ainda mais precária. A rede de apoio mais fina também colapsou em vários pontos: quatro postos de colheitas de análises clínicas encerraram portas, farmácias ficaram inacessíveis e os doentes que dependem de cuidados domiciliários viram-se isolados, sem assistência.

Perante este quadro, a organização, que agrega 103 entidades, exige medidas imediatas. Fala na necessidade de uma inventariação rápida de todas as unidades com funcionamento comprometido e na ativação de planos de contingência que sejam, nas suas palavras, “robustos”. Estes planos, defende, devem abranger os setores público e privado e conseguir dar orientações claras às populações, para evitar que doentes fiquem à deriva sem saber onde procurar ajuda.

Para além da resposta de emergência, o CPSA aponta para trabalhos urgentes de saneamento e gestão ambiental, como a desobstrução de drenagens e o controlo de pragas, fundamentais para travar o aumento de doenças de origem hídrica, problemas de pele ou contaminações químicas que já começam a surgir. A organização reforça, com uma nota de fundo mais permanente, que a adaptação do sistema de saúde às alterações climáticas é uma “prioridade de saúde pública e uma responsabilidade coletiva” que está a ser negligentemente adiada. Enquanto isso, o país conta os estragos e as vítimas – tanto as visíveis como as que permanecem nas sombras dos relatórios.

NR/HN/Lusa

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