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O encontro teve um carácter simbólico inegável. Uma delegação da União Europeia de Hospitalização Privada (UEHP) ajoelhou-se, na semana passada, na Sala Clementina, para receber a bênção do Papa Leão XIV. Óscar Gaspar, presidente da UEHP e também da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada, liderava o grupo e, num gesto carregado de significado, pediu ao Pontífice que abençoasse especificamente os profissionais dos hospitais privados, “que cuidam dos doentes com dedicação, compaixão e respeito”. A cena, quase pictórica, serviu de preâmbulo a uma movimentação de contornos bem mais terrenos.
A audiência papal inscreveu-se nas comemorações do 35.º aniversário da própria UEHP, cuja assembleia geral se realizou precisamente em Roma, cidade onde a federação nasceu em 1991. Reunindo os responsáveis por mais de seis mil clínicas e hospitais de 17 países, o conclave tinha um objetivo concreto: fechar posição sobre os rumos do setor. Do trabalho saiu a denominada Declaração de Roma, um documento que, mais do que celebrar efemérides, lança um alerta sério e propõe um caminho.
O cerne da declaração é um apelo veemente, e por vezes em tom de exigência, a uma maior e mais eficaz coordenação entre os sistemas públicos e privados de saúde em toda a Europa. A justificação assenta numa realidade percecionada como crítica: o aumento galopante da procura e uma escassez de profissionais que estrangula a capacidade de resposta. A UEHP não se coloca à margem; afirma-se, pelo contrário, como “um pilar essencial” dos sistemas europeus, responsável por uma parte significativa da capacidade hospitalar e contribuindo de “forma decisiva” para o acesso e a qualidade. Mas essa posição, defendem, não basta se não houver uma arquitetura colaborativa.
O texto é explícito ao identificar a falta de profissionais como “um dos desafios mais críticos” atuais. Para o resolver, clama por políticas europeias e nacionais coordenadas que atraiam, formem e retenham trabalhadores, num esforço que deve reconhecer “a contribuição de todos os prestadores”. Há também uma reivindicação material. A UEHP exige “estruturas de financiamento justas, transparentes e realistas”, que não ignorem a inflação, os custos operacionais crescentes e a necessidade de investimento. A cooperação, lê-se no documento, não é mera opção. É “essencial” para reforçar a capacidade, melhorar os resultados em saúde e assegurar o acesso universal.
Por detrás das palavras está um setor que cresceu em peso e importância. A UEHP, através da sua rede, representa hoje 97% da capacidade hospitalar privada na Europa. Dados da OCDE referentes a 2023 indicam que os hospitais não públicos detêm 42% do total de camas na UE27. São números que falam por si e que sustentam a ambição de um lugar diferente à mesa das decisões. A declaração, no seu fecho, reafirma um compromisso genérico com a qualidade e a inovação, mas o seu eco principal é outro: um convite, quase um ultimato, para que todos os parceiros — políticos, outros prestadores, profissionais e doentes — trabalhem em conjunto. O objetivo final, descrevem com uma vaga esperança, é uma Europa mais saudável e mais resiliente. Enquanto isso, na cidade eterna, a bênção do Papa aos que cuidam dos doentes parece ecoar como um lembrete de que, em saúde, todos os gestos, dos mais espirituais aos mais burocráticos, acabam por se encontrar.
PR/HN/MM



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