![]()
O cenário da saúde mental em Portugal desenha um retrato de progressos sensíveis, ainda que não lineares e atravessados por condicionalismos vários. Os dados do “Consumer Sentiment Survey 2025”, trabalho desenvolvido pela consultora Boston Consulting Group (BCG), apontam para que 56% dos portugueses inquiridos classifiquem o seu estado psicológico como bom ou ótimo. Esta perceção, contudo, não se distribui de forma uniforme: enquanto 61% dos homens a partilham, apenas 53% das mulheres o fazem, um fosso que merece análise e que espelha, possivelmente, pressões sociais diferenciadas.
Esta melhoria gradual, que se vem registando desde 2021, parece alicerçar-se sobretudo em pilares relacionais e comportamentais. Quase metade dos participantes (46%) identifica a interação regular com amigos e família como a pedra angular dos seus cuidados psicológicos. Não se trata de uma novidade absoluta, claro, mas a sua primazia quantificada confere um dado novo à discussão. Paralelamente, rotinas de alimentação equilibrada e sono adequado (44%), bem como a prática de exercício físico (43%), consolidam-se como eixos fundamentais. Até os hobbies e o lazer, por vezes menosprezados na equação da saúde, são assumidos por 42% como componentes legítimas e necessárias do seu bem-estar. É como se, lentamente, se assistisse a uma migração do conceito: de algo abstrato ou ligado à doença, para um território tangível, gestível no dia a dia através de opções conscientes.
Neste caminho, a procura por ajuda profissional especializada regista também um incremento digno de registo. No ano passado, 17% dos portugueses recorreram a psicólogos ou psicoterapeutas, um valor que contrasta com os 14% de 2024. Este movimento sugere uma normalização paulatina do tema e uma certa quebra de estigmas, embora sem apagar os tradicionais amparos informais da família e dos círculos próximos. O crescimento é simultâneo, não substitutivo.
Todavia, o estudo lança uma luz crua sobre os fatores que mais influenciam, para o bem e para o mal, o equilíbrio emocional dos portugueses. A saúde física, as relações familiares e, de forma vincada, a saúde financeira emergem como determinantes poderosos. A estabilidade económica não é um mero pano de fundo; é uma variável ativa e pesada na equação do bem-estar. Curiosamente, o propósito de vida ganha uma relevância acrescida nas respostas, indiciando uma procura por sentido que transcende a mera gestão de sintomas.
No universo laboral, o panorama acompanha a tendência de fundo. Setenta e sete por cento consideram que o seu emprego oferece condições para estarem psicologicamente bem. E, neste capítulo, são as dinâmicas humanas que mais contam: a relação com colegas (60%) supera em importância as condições materiais do local de trabalho e a flexibilidade horária (ambas com 48%). “Os resultados mostram uma recuperação sustentada, mas também evidenciam que o bem-estar psicológico é hoje influenciado por um leque mais vasto de fatores estruturais”, comentou Clara Albuquerque, Managing Director & Partner da BCG em Portugal. “Isso impõe uma abordagem necessariamente integrada, seja a nível individual, seja no desenho de políticas empresariais”, acrescentou.
Apesar do otimismo cauteloso que os números inspiram, o relatório não ignora a fragilidade subjacente. A melhoria é consistente, mas ocorre num contexto de incertezas económicas e sociais que a podem minar. A consolidação destes ganhos, alerta-se, dependerá da capacidade de se fortalecerem estilos de vida saudáveis, de se promoverem redes sociais robustas e, decisivamente, de se criarem bases financeiras e profissionais mais sólidas para as pessoas. A trajetória é positiva, mas o caminho permanece exigente.
O “Consumer Sentiment Survey” baseou-se num inquérito a 1.000 indivíduos residentes em Portugal continental, realizado em agosto de 2025.
PR/HN/MM



0 Comments