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Há sentidos que comandam a nossa atenção diária, e outros que vão ficando numa penumbra inquietante. A audição integra, com frequência, este último grupo. Não será por falta de avisos. A Organização Mundial da Saúde não se cansa de alertar para a prevalência crescente de problemas auditivos, alimentados pelo ruído ambiental, pelos hábitos de escuta e pelo simples avançar da idade. Mas o tema teima em não ecoar com a força necessária na agenda pública. É precisamente este silêncio que a Semana do Som – Portugal 2026 se propõe a quebrar, num percurso de norte a sul que quer ser mais do que uma sucessão de eventos.
Promovida pela OUVIR – Associação Portuguesa de Portadores de Próteses e Implantes Auditivos, em colaboração com a UNESCO, a semana insere-se numa rede internacional. A sua ambição, contudo, é local e concreta: fazer da saúde auditiva uma prioridade coletiva. “É um sentido fundamental para a autonomia e para a integração”, lembra a organização, sublinhando que a perda auditiva permanece subdiagnosticada e subvalorizada, com custos humanos e sociais pouco visíveis.
O arranque acontece em Braga, no dia 16 de fevereiro, num formato que se repetirá com variações: uma palestra seguida de música, procurando demover a ideia de que estes são universos separados. Dois dias depois, a FNAC do NorteShopping, no Porto, recebe uma sessão dedicada aos “Prazeres da Música e da Audição”. Coimbra junta-se no dia 19, com uma reflexão académica e comunitária sobre o silêncio e o ciclo de vida da audição.
O ponto de maior fôlego institucional está marcado para Lisboa, no dia 20, no Centro Cultural de Belém. Ali, uma conferência internacional vai reunir especialistas, decisores políticos e representantes de várias áreas para debater temas espinhosos e promissores. Desde os custos económicos da perda auditiva não tratada até às políticas europeias para o acesso a tecnologias, passando pela inclusão laboral e pela inovação na reabilitação. Será um dia de cruzamento de perspetivas, onde se espera que a ciência informe a ação prática.
O encerramento, a 21 de fevereiro, no Teatro Capitólio, em Lisboa, aposta na força emotiva da cultura. Um espetáculo musical solidário e inclusivo, com legendagem, reunirá artistas consagrados e novos talentos. As receitas da bilheteira reverterão a favor dos projetos da OUVIR, numa lógica de financiamento direto à causa. Os bilhetes estão disponíveis na plataforma Bol.pt.
A semana, no seu conjunto, funciona como um convite alargado. Dirige-se a profissionais de saúde, a educadores, a decisores, mas também a famílias e a qualquer cidadão. Porque, no fundo, o alerta é simples: numa sociedade que se quer informada e coesa, aprender a escutar – e a preservar essa capacidade – não é um ato opcional. É um alicerce.
PR/HN/MMM



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