Tempestade Kristin: Bastonária antevê janela crítica de três meses para saúde psicológica das populações

3 de Fevereiro 2026

A Ordem dos Psicólogos Portugueses alerta que o pico das sequelas emocionais da depressão Kristin surgirá nos próximos 90 dias, após a fase de resposta de emergência. O apoio está a ser canalizado para casos agudos, mas a verdadeira demanda psicológica está para chegar

Os próximos noventa dias constituem uma janela temporal decisiva para conter o impacto psicológico da depressão Kristin nas populações afetadas. O aviso é da bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), Sofia Ramalho, que destaca um padrão comum nestas crises: o verdadeiro custo emocional só se revela quando a poeira da emergência inicial assenta. Enquanto isso, as comunidades, algumas já fustigadas por sinistros anteriores, concentram-se na proteção física e nos bens, numa resposta quase instintiva que adia a procura de ajuda.

“Temos em primeiríssimo lugar que salvaguardar a proteção física das próprias pessoas”, afirmou Sofia Ramalho à Lusa. No terreno, o esforço ainda é dominado pelas entidades de socorro, com o Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil ativado. O papel dos psicólogos, articulado através do Centro de Apoio Psicológico de Intervenção em Crise (CAPIC) e das Unidades Locais de Saúde (ULS), foca-se por agora em situações agudas de descompensação emocional. Autarquias dispõem igualmente de equipas psicossociais a apoiar tanto profissionais como civis.

Contudo, a bastonária desenha um cenário preocupante para as semanas que se avizinham. A retoma das rotinas, muitas vezes em habitações ou vilas com marcas profundas da intempérie, tende a funcionar como um detonador. É nessa altura, quando a adrenalina baixa e a exaustão se instala, que sintomas como ansiedade aguda, perturbações do sono ou reações de ‘stress’ pós-traumático ganham terreno. “O mais habitual é que as pessoas se concentrem na proteção dos seus bens e na sua segurança”, reconhece Ramalho, antecipando que a procura de apoio psicológico disparará mais tarde.

O problema agrava-se para quem vive em zonas assoladas por incêndios ou outras calamidades no passado recente. Estas populações, explica a bastonária, estão “revivendo traumas e perdas repetidas”, um fardo que se soma a dificuldades sociais e económicas preexistentes e cria um caldo propício para crises mais profundas. As crianças figuram num grupo de particular vulnerabilidade. Com os adultos de referência absorvidos pela resposta à crise, muitas são “levadas a terem que se organizar emocionalmente sozinhas”, alimentando medos de abandono ou de novo perigo físico.

“Os próximos três meses são fundamentais para o acompanhamento psicológico”, insistiu Sofia Ramalho. O sistema de saúde, garante, está preparado para acolher reações emocionais agudas. Equipas no terreno monitorizam já sinais de fragilidade, num trabalho de triagem silencioso que tenta antecipar a vaga. O receio, porém, é que o estigma ou a simples luta pela sobrevivência quotidiana impeçam muitos de pedir ajuda atempada, alongando assim a sombra da tempestade Kristin muito para além da sua passagem meteorológica.

NR/HN/Lusa

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