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O relatório “Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais” da Fundação “la Caixa”, BPI e NOVA SBE1 traz para cima da mesa uma temática central que facilmente se perde na espuma dos dias: a autonomia do utente e a sua autogestão nos cuidados de saúde.
A automedicação é a seleção e utilização de medicamentos pelos indivíduos para tratar doenças ou sintomas por si reconhecidos, podendo ou não ser orientada por profissionais de saúde. Em Portugal, a automedicação tem acompanhado a tendência de evolução regulamentar, com a reclassificação de medicamentos para a dispensa sem recurso a receita médica ou, mais recentemente, a liberalização da comercialização desta tipologia de medicamentos fora das farmácias. Neste seguimento, este relatório conclui que a automedicação é um fenómeno comum: mais de metade dos inquiridos referem que se automedicaram em algum momento. Aliás, de acordo com o relatório “Acesso a cuidados de saúde, 2025”2 dos mesmos autores, 76,4% dos utentes que não recorreram ao sistema de saúde em 2025 optaram pela automedicação.
Falar de automedicação implica dois pressupostos: o utente tem a capacidade de executar um auto-diagnóstico e, de seguida, de estabelecer uma auto-“prescrição” terapêutica. Estas decisões surgem frequentemente de experiências clínicas anteriores, mas podem comportar riscos iatrogénicos, de insucesso terapêutico e/ou de agravamento de prognóstico. Em contrapartida, permitem uma maior conveniência ao utente e a diminuição do consumo de recursos num sistema francamente saturado, evitando consultas e urgências desnecessárias. Neste contexto, o estudo traz-nos dados tranquilizadores: cerca de sete em cada dez dos inquiridos referiram que, na experiência mais recente, a sua automedicação resolveu o problema de saúde. De seguida, o relatório inclui um conjunto de análises bastante elucidativas quanto ao perfil comportamental e outros determinantes que podem modelar a automedicação.
Ainda assim, subsistem questões adicionais que merecem ser consideradas para um retrato mais completo deste fenómeno.
De acordo com o NHS Long Term Plan3, publicado em 2019, mais de 200 milhões de libras podem ser poupadas anualmente em Inglaterra com a promoção de automedicação, nomeadamente através da redução de prescrições desnecessárias. Uma outra publicação, de 2018, correspondente a um estudo de minimização de custos na Alemanha4, estima que cada euro gasto pelos utentes em automedicação traduz-se numa poupança líquida equivalente a cerca de 14 euros em recursos económicos que, de outra forma, seriam necessários para o sistema público de seguro de saúde. Em Portugal, a evidência neste tópico é limitada. Numa lógica de promoção de eficiência e racionalidade na gestão dos limitados recursos do Serviço Nacional de Saúde, seria relevante executar uma análise semelhante e adaptada à realidade nacional, que possa considerar tanto os benefícios da automedicação como os custos derivados dos seus riscos.
Importa, ainda, identificar potenciais áreas de investimento estratégico ao nível da automedicação. A título ilustrativo, um estudo de 20165 em que se compilaram 271 denominações comuns internacionais de medicamentos não sujeitos a receita médica e de dispensa exclusiva em farmácia comunitária em 6 países comparáveis à realidade portuguesa, verificou que apenas 4% destes se encontravam classificados como tal em Portugal, pelo que os investigadores refletem sobre a pertinência do alargamento desta modalidade de automedicação orientada por um profissional de saúde. Uma década depois, torna-se particularmente relevante atualizar estes dados à luz do contexto atual. Adicionalmente, uma avaliação do impacto que a reclassificação destes medicamentos poderia ter na eficiência do SNS poderá apoiar o decisor a estabelecer um modelo de acessibilidade a tecnologias de saúde que concilie conveniência, poupanças em saúde e segurança do utente, reconhecendo o importante papel que os autocuidados podem desempenhar na sustentabilidade e modernização do sistema de saúde contemporâneo.
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1Barros P, Santos C. Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais [Internet]. Lisboa: Nova School of Business and Economics (Cátedra BPI | Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde); 2026. Disponível em: https://www.novasbe.unl.pt/Portals/0/Files/Social%20Equity%20Initiative/Automedicacao_em_Portugal_WEB.pdf
2Barros P, Santos CB. Relatório de Acesso a Cuidados de Saúde 2025 [Internet]. Lisboa: Nova School of Business and Economics (Cátedra Banco BPI | Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde — Iniciativa para a Equidade Social); 2025. Disponível em: https://www.novasbe.unl.pt/Portals/0/Files/Social%20Equity%20Initiative/2026/Relatorio-de-Acesso-a-Cuidados-de-Saude-2025.pdf
3NHS England. The NHS Long Term Plan [Internet]. Londres: NHS England; 2019. Disponível em: https://www.longtermplan.nhs.uk
4 May U, Bauer C. Pharmacy-based self-care of minor ailments – a health economic analysis focused on the German healthcare system. SelfCare [Internet]. 2018;9(2):27-46. Disponível em: https://selfcarejournal.com/wp-content/uploads/2018/05/May-Bauer.-9.2.27-46.pdf
5Martins AP, Gonçalves E, Marcelo A, Vilão S, Silva JA. Pharmacy Medicines Not Subject to Medical Prescription in Portugal: An Underused Access Opportunity? Acta Med Port [Internet]. 2016 Sep 30;29(9):542–548 [citado em 26 jan 2026]. Disponível em: https://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/view/7465
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NOTA: Os leitores do HealthNews passam a ter acesso a uma nova coluna mensal, intitulada “Nova Voz na Saúde”, resultante de uma colaboração estruturada com o Health Economics & Management Knowledge Center da Nova School of Business & Economics (Nova SBE). Esta aliança editorial, pretende enriquecer o espaço público com reflexões fundamentadas nas áreas da economia da saúde, políticas públicas e gestão de sistemas e organizações de saúde. Pode aceder a todos os conteúdos aqui: Nova Voz na Saúde


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