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Um coral de vozes experientes, compostas por mais de quatrocentos antigos ministros, embaixadores e altos funcionários da União Europeia e dos seus Estados-membros, elevou o tom da crítica à posição comum europeia sobre o conflito israelo-palestiniano. Num apelo divulgado esta segunda-feira, o colectivo insta à saída imediata do Conselho de Paz do ex-presidente norte-americano Donald Trump, um fórum que, na sua avaliação, ameaça solapar o papel das Nações Unidas. A sua configuração atual, alegam, inclui um criminoso de guerra indiciado pelo Tribunal Penal Internacional.
Os subscritores, que totalizam 410 nomes, não se ficam pela crítica simbólica. Exigem um diálogo crítico com Israel, dotado de um prazo definido, sobre a aplicação do Acordo de Associação UE-Israel. Na ausência de progressos, defendem medidas tangíveis para travar o que caracterizam como excessos israelitas e violações incessantes do direito internacional. A suspensão do próprio Acordo de Associação surge como uma possibilidade real sobre a mesa.
A narrativa de declarações sem consequências práticas é central no documento. Apesar de reconhecerem as consistentes condenações verbais por parte de Bruxelas, os ex-responsáveis acusam a UE de uma paralisia inaceitável. “Tais declarações condenatórias não foram acompanhadas de medidas concretas”, pode ler-se, num tom de frustração evidente. A prioridade imediata, sustentam, tem de ser inverter as realidades no terreno em Gaza, Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, onde a situação de segurança se desfaz dia após dia.
O apelo torna-se particularmente gráfico ao detalhar o custo humano. Referem que, mesmo durante a primeira fase do cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025, a atividade militar israelita continuou implacável, causando cerca de 500 mortes palestinianas adicionais em Gaza. O número total de mortes desde o início das operações militares é aproximado às 71.700, uma esmagadora maioria civis. “Estas mortes devem cessar imediatamente”, insistiu o grupo.
Para lá do fogo, a lista de preocupações é longa e minuciosa. A obstrução à ajuda humanitária, incluindo abrigos de inverno para uma população desamparada, é denunciada com vigor. A decisão israelita de cancelar o registo de aproximadamente 37 organizações não-governamentais internacionais é vista como parte de uma política obstrucionista que precisa de terminar. O texto adverte contra o regresso a um modelo falhado de distribuição de ajuda, citando nominalmente a ‘Fundação Humanitária de Gaza’ (GHF) e as suas “consequências mortais”.
A campanha israelita contra a UNRWA, a expansão de colonatos ilegais, a retenção de receitas fiscais palestinianas e o bloqueio de serviços bancários são outros entraves listados que, no seu entender, sabotam a Autoridade Palestiniana e a economia local. A perseguição a jornalistas, profissionais de saúde e trabalhadores humanitários, com centenas de vítimas, é igualmente condenada. Por fim, o destino de mais de nove mil palestinianos detidos, muitos sem acusação, é apontado como uma questão urgente.
A conclusão do apelo é um chamamento a que a UE redescubra a sua bússola moral. “Uma abordagem robusta, assente nos valores e princípios fundadores da UE, será essencial para restabelecer a reputação da União como uma força para a paz”, reiteram os 410 signatários. O caminho que propõem passa por buscar aliados estratégicos na OCDE, no Médio Oriente, no Sul Global e no G20 para formar uma frente comum. O objetivo último, afirmam, não pode ser senão travar anexações, garantir responsabilidade por crimes internacionais e preservar a exangue solução de dois Estados.
NR/HN/Lusa



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