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HealthNews (HN) – O Fullsense é apresentado como um programa inovador e democrático. Como é que a intervenção psicológica online consegue superar barreiras geográficas e socioeconómicas para promover a “justiça sexual” referida pelo Professor Pedro Nobre?
PN – O Fullsense é um programa de intervenção inovador, na medida em que utiliza processos psicoterapêuticos cientificamente validados numa modalidade online, o que permite alcançar um número extremamente elevado de pessoas, independentemente da sua localização, das suas condições socioeconómicas ou das suas características pessoais. É um programa inclusivo, adaptado a pessoas com diversidade sexual e de género e orientado para a promoção de uma visão positiva da sexualidade e de uma vivência sexual mais prazerosa. Em suma, trata-se de um programa democrático e potenciador de maior justiça social e sexual, dimensões que integram a saúde e os direitos humanos.
HN – O programa destina-se a adultos com queixas sexuais que causam sofrimento emocional significativo. Quais são os principais desafios para adaptar e garantir a eficácia de processos psicoterapêuticos tradicionais para uma modalidade totalmente digital?
PN – As modalidades de intervenção online em psicoterapia têm sido amplamente estudadas nos últimos anos, como complemento ou alternativa a intervenções tradicionais face a face. Obviamente, há um conjunto de condicionalismos e desafios adicionais quando usamos intervenções digitais em saúde mental e sexual, em comparação com intervenções face a face. Um dos maiores condicionalismos é a ausência de relação terapêutica, que é de extrema importância no processo psicoterapêutico. Existem também limitações em termos de flexibilidade no processo terapêutico e de taxa de abandono, que tende a ser maior neste tipo de intervenção, em comparação com a psicoterapia face a face. Não obstante, os estudos têm mostrado, de forma consistente, que as intervenções online apresentam resultados comparáveis às intervenções face a face, nomeadamente em situações clínicas menos graves, e desempenham um papel determinante na prevenção e promoção da saúde mental e sexual. Por último, e não menos importante, estas intervenções permitem ultrapassar barreiras e chegar com maior facilidade a um número muito grande de pessoas e, por isso, apresentam resultados muito relevantes em termos de custo-benefício.
HN – Os dados do estudo SHAPE indicam que mais de metade da população portuguesa está insatisfeita com a sua vida sexual. Para além da intervenção individual do Fullsense, que medidas estruturais ou de educação sexual considera prioritárias para inverter este cenário a nível nacional?
PN – Os resultados do estudo SHAPE (questionário da OMS sobre saúde sexual e práticas sexuais) realizado numa amostra representativa da população Portuguesa e coordenado pelo SexLab, do Centro de Psicologia da Universidade do Porto (CPUP) fazem um diagnóstico do estado da saúde sexual no nosso país e sublinham um conjunto de problemas relacionados com a violência sexual, a discriminação com base na identidade sexual e de género e as dificuldades sexuais para as quais é premente desenvolver políticas públicas. Nesse sentido, a educação sexual ganha uma importância central uma vez que existe evidência científica acumulada e robusta que suporta o papel positivo da Educação Sexual num conjunto de dimensões centrais que incluem a redução de comportamentos de risco sexual (maior prevenção de infeções sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas), o aumento de atitudes positivas em relação à saúde sexual, a redução da violência sexual, da discriminação baseada na orientação sexual e identidade de género e da desigualdade de género. Para além da educação sexual, que tem um impacto fundamental na prevenção de problemas e na promoção da saúde sexual, é também muito importante fomentar políticas públicas que aumentem a literacia em saúde sexual de toda a população e promovam atitudes positivas face à sexualidade, como uma dimensão central da vida de todas as pessoas, fortemente associada ao bem-estar e à qualidade de vida.
HN – Além do Fullsense, a Universidade do Porto anunciou recentemente a criação de um Observatório Mundial de Saúde Sexual. Qual será o papel deste Observatório e de que forma ele complementa o trabalho de investigação e intervenção já desenvolvido pelo SexLab?
PN – O Observatório Mundial de Saúde Sexual é um projeto global resultante de uma parceria estratégica entre a Universidade do Porto, por meio da FPCEUP, e a Associação Mundial de Saúde Sexual, lançado no último mês de setembro de 2025, no Dia Mundial da Saúde Sexual. Este observatório é, pois, uma plataforma mundial que tem como objetivo desenvolver conhecimento baseado em evidências científicas sobre temas de saúde sexual e direitos sexuais em todo o mundo, capaz de informar e apoiar o desenvolvimento de políticas públicas, a nível global, regional e nacional, para promover a saúde e o bem-estar sexual. Para atingir estes objetivos, a Universidade do Porto e a Associação Mundial de Saúde Sexual acordaram em desenvolver uma rede internacional de instituições académicas e de investigação de renome, nos diferentes continentes e regiões, em conjunto com as principais organizações internacionais sobre saúde e direitos sexuais. O Observatório Mundial promoverá o desenvolvimento de capacidades em países e regiões onde a evidência científica existente é escassa (e.g., África, Ásia e Pacífico, América Latina, Médio Oriente e Europa Oriental), bem como promoverá o diálogo político sobre questões relacionadas à saúde e ao bem-estar sexual em todo o mundo.
HN – Como avalia a formação especializada nesta área no país? O Fullsense e o futuro Observatório podem ser uma alavanca para atrair mais profissionais para este campo?
PN – A oferta formativa disponibilizada pela FPCEUP na área da sexualidade humana, por meio do Programa Doutoral em Sexualidade Humana (PDSH) e, mais recentemente, do Mestrado em Sexologia (MSEX), permite atender às necessidades formativas de profissionais de diversas áreas. Esta oferta reflete uma aposta crescente na qualificação profissional e no desenvolvimento futuro de respostas especializadas e baseadas na evidência neste domínio.
HN – O Observatório Mundial de Saúde Sexual pretende monitorizar indicadores em escala global. Que indicadores considera fundamentais para uma avaliação rigorosa da saúde sexual das populações e que lições da realidade portuguesa podem ser relevantes em um contexto internacional?
PN – O importante papel da Saúde Sexual como dimensão fundamental da saúde global está a receber um apoio crescente em termos de evidências científicas. Uma revisão sistemática recente, desenvolvida pelo grupo de investigação em sexualidade e género do CPUP, com base em estudos realizados em todo o mundo, mostrou que a saúde sexual está fortemente associada à saúde e ao bem-estar geral. No entanto, apesar do conhecimento acumulado sobre muitas dimensões-chave da saúde sexual (por exemplo, tópicos de saúde sexual e reprodutiva, IST, incluindo HIV), alguns tópicos ainda são pouco estudados a nível global (por exemplo, bem-estar sexual, satisfação sexual, prazer, direitos sexuais e justiça). Além disso, não existe consenso sobre indicadores globais de saúde sexual (particularmente dimensões positivas da saúde sexual) que possam ser utilizados para avaliar e comparar o estado da saúde sexual em populações de diferentes países em todo o mundo. Por último, os poucos estudos com base em amostras representativas existentes foram desenvolvidos em um número limitado de países do Norte Global e utilizam medidas específicas que não permitem comparações entre países.
HN – A criação do Observatório sugere uma ambição de colocar a U. Porto e a FPCEUP à vanguarda da investigação em saúde sexual. Qual é a visão de longo prazo para este eixo de trabalho, que integra investigação (Observatório/Sexlab), intervenção (Fullsense e outros programas) e formação académica (MSEX e PDSH)?
PN – A Universidade do Porto e a FPCEUP já são reconhecidas mundialmente como referências na área dos estudos da sexualidade e da saúde sexual. Este reconhecimento global resulta do trabalho de muitas pessoas que dedicaram a sua vida profissional à investigação e ao ensino nestas temáticas e que constituem o Grupo de Investigação em Sexualidade e Género do CPUP, permitindo que a Universidade do Porto fosse pioneira, no espaço europeu, na oferta de um Programa Doutoral em Sexualidade Humana (PDSH), que seja das poucas na Europa a ter um Laboratório de Investigação especializado em Sexualidade (SexLab) ou que tenha aberto, mais recentemente, o primeiro Mestrado em Sexologia (MSEX) numa universidade pública em Portugal. Para além disso, temos uma consulta de saúde sexual oferecida a toda a comunidade da Universidade do Porto e diversos programas de intervenção psicológica online, como o Fullsense.
Em termos de investigação, a Universidade do Porto foi recentemente classificada como uma das principais referências mundiais em produção científica e impacto científico, em temas como a função sexual (número 2 do mundo nos últimos 5 anos) e a medicina sexual (número 4 do mundo nos últimos 5 anos).
Com a criação do Observatório Mundial de Saúde Sexual, estamos a dar um passo no sentido de uma integração completa entre as áreas da investigação (Grupo de Investigação em Sexualidade e Género e SexLab), formação especializada (PDSH, MSEX), serviço à sociedade (Consulta de Saúde Sexual, Fullsense e outras intervenções online) e impacto nas políticas públicas, ao nível nacional e global (como resultado da evidência produzida pelo Observatório), permitindo consolidar a Universidade do Porto como referência mundial nesta área.
Links associados:
FULLSENSE: https://inqueritos.up.pt/6/
SEXLAB: https://sexlab.fpce.up.pt/
CENTRO DE PSICOLOGIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO: https://cpup.fpce.up.pt/pages/
OBSERVATÓRIO MUNDIAL DE SAÚDE SEXUAL: https://noticias.up.pt/2025/
PROGRAMA DOUTORAL EM SEXUALIDADE HUMANA (PHSH): https://www.up.pt/fpceup/pt/
MESTRADO EM SEXOLOGIA (MSEX): https://www.up.pt/fpceup/pt/
Entrevista MMM



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