Portugal e Espanha alargam cooperação científica em cuidados paliativos

4 de Fevereiro 2026

A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos e a sua congénere espanhola renovaram e alargaram o convénio de colaboração, que passa pela tradução para português da revista Medicina Paliativa e pela integração de investigadores portugueses nas suas estruturas editoriais e redes de trabalho

O compromisso já existia, mas ganha agora outro fôlego e ambição. A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) e a Sociedade Espanhola de Cuidados Paliativos (SECPAL) renovaram formalmente o Convénio Ibérico de colaboração, um passo que ambas as entidades não hesitam em classificar como estratégico para o desenvolvimento desta área em Portugal e Espanha. O cerne do acordo, assinado a 3 de fevereiro de 2026, reside no impulso à cooperação científica, formativa e institucional, materializando-se em acções conjuntas que vão desde a promoção da investigação à integração de equipas portuguesas nos grupos de trabalho da sociedade espanhola.

Um dos elementos mais tangíveis desta aliança é o futuro da revista Medicina Paliativa, o órgão científico da SECPAL. A publicação, que nasceu em julho de 1994 e se afirmou como uma das mais antigas e relevantes no domínio em língua espanhola, entrará numa nova fase. Passará a ser traduzida para português e integrará representação portuguesa no seu Conselho Editorial, um movimento que visa, nas palavras da presidente da APCP, Catarina Pazes, “reforçar a sua dimensão ibérica”. Pazes sublinha que a partilha de desafios semelhantes entre os dois países torna o trabalho conjunto fundamental, uma visão que espera que se reflita numa melhor resposta aos doentes e suas famílias. A dirigente vê nesta colaboração um investimento estratégico para a divulgação de evidência científica, não confinado à Península, mas projectado para todos os contextos onde se falam português e espanhol.

Do lado espanhol, Elia Martínez, presidente da SECPAL, contextualiza este alargamento como parte de um plano mais vasto. A ampliação do alcance da publicação, explica, ficará concluída em março, no Brasil, com a assinatura de um convénio com a Associação Latino-Americana de Cuidados Paliativos (ALCP). Este triplo eixo transformará a Medicina Paliativa, na perspectiva de Martínez, na revista científica de referência em cuidados paliativos para Espanha, Portugal e América Latina. “Consolidando um espaço comum de conhecimento e colaboração para toda a comunidade ibero-americana”, afirmou. Para a líder da SECPAL, este esforço editorial não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta crucial para um objectivo maior: reforçar os cuidados paliativos enquanto disciplina científica sólida, algo que, na sua opinião, só é possível “através da investigação e da geração de evidência”.

A revista, de carácter multidisciplinar desde a sua fundação, tem servido como suporte fundamental para a publicação em espanhol de trabalhos de todas as disciplinas ligadas aos cuidados paliativos. Este novo capítulo ibero-americano pretende elevá-la ao estatuto de plataforma científica internacional, um canal reforçado para a difusão do conhecimento e, no fundo, para a melhoria prática dos cuidados prestados nos mundos de língua portuguesa e espanhola. A APCP, associação portuguesa sem fins lucrativos que agrega profissionais de saúde de diversas áreas — da medicina à enfermagem, da psicologia ao serviço social —, encontra assim um veículo alargado para a projecção do trabalho desenvolvido em Portugal. O acordo, mais do que um documento, desenha uma cartografia de colaboração que pretende fazer da fronteira um ponto de encontro, e da língua um instrumento partilhado para fazer avançar uma área que, reconhecem ambos os lados, carece de mais investigação e visibilidade. O caminho, sugerem as declarações, faz-se alargando pontes, primeiro entre Lisboa e Madrid, e depois rumo a outros horizontes linguísticos e geográficos.

PR/HN/MM

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