Refundação do INEM não evitará sobressaltos, compara presidente a “mudar rodas de Ferrari em andamento”

4 de Fevereiro 2026

Luís Mendes Cabral, presidente do INEM, alertou os deputados que a reestruturação profunda do instituto trará necessariamente contratempos, dada a complexidade de alterar uma estrutura praticamente inalterada desde 1981, enquanto se mantém a operação

O presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) não usa meias palavras para descrever o desafio que tem pela frente. Perante a comissão parlamentar de Saúde, Luís Mendes Cabral admitiu, num tom que misturava determinação com realismo, que a refundação da instituição será impossível sem “alguns sobressaltos”. A imagem que escolheu para ilustrar a dificuldade foi plástica: “Nós estamos a falar em mudar as rodas de um Ferrari em alta velocidade e em andamento”. A audiência, pedida pelo PS e pelo Chega, serviu para o médico, em funções desde novembro de 2025, expor a espinha dorsal de um plano que considera inadiável. A orgânica do INEM, sustentou, mantém-se praticamente inalterada desde a fundação, em 1981, e padece de uma “falta de liderança clínica clara” tanto na gestão como no terreno operacional. Daí a necessidade, que classificou como “a mais permanente”, de uma nova lei orgânica, já anunciada pelo Governo, para reorganizar o sistema e corrigir limitações estruturais há muito identificadas. Cabral, que deixou o cargo de diretor clínico do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores para aceitar este desafio, foi perentório: “Se não fosse para refundar o INEM, se fosse para manter tudo como está, provavelmente não teria saído do meu conforto”. Um dos pilares da mudança passa por assentar o socorro pré-hospitalar, de forma inequívoca, em três níveis: suporte básico de vida, suporte imediato de vida e suporte avançado de vida. “Não há entrelinhas, não há outra forma de olhar para o socorro senão nestes três níveis”, afirmou o especialista em medicina de urgência, defendendo que o INEM terá de ajustar todo o seu funcionamento a essa segmentação, com protocolos definidos por uma direção clínica. O responsável não esqueceu o atraso tecnológico. Num momento de candente franqueza, confessou que o INEM, outrora um dos institutos tecnologicamente mais avançados do país, hoje “não sabe onde andam as ambulâncias”. A geolocalização das viaturas é, pois, uma das metas urgentes. A refundação, insiste, passa por estas e outras alterações concretas, mesmo que o processo, inevitavelmente, não seja totalmente tranquilo.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Humberto Alexandre Martins: “A profissão farmacêutica está em cada ato, independentemente do local”

Proximidade aos farmacêuticos, descentralização e formação contínua são os pilares do primeiro ano de mandato de Humberto Alexandre Martins à frente da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos. Em entrevista exclusiva, o presidente faz balanço do percurso, destaca visitas a ULS, o impacto das novas áreas formativas e anuncia avanços na articulação entre farmacêuticos e o SNS

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights