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A pressão que se acumula diariamente nas urgências e nos internamentos médicos já não é, na visão da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, um problema pontual ou sazonal. Transformou-se num sintoma iniludível de um modelo de organização hospitalar que chegou ao limite. Foi com esta convicção que a SPMI formalizou e entregou esta quarta-feira, dia 4 de fevereiro, uma Proposta de Reforma Hospitalar aos responsáveis do Ministério da Saúde e da Direção Executiva do SNS. O documento, elaborado pelos médicos António Oliveira e Silva, António Martins Baptista e pelo presidente da sociedade, Luís Duarte Costa, aponta o dedo à forma como as instituições estão desenhadas. A questão de fundo, sustentam, não é a sobrecarga da Medicina Interna, mas antes a falha de todo o hospital em responder coletivamente à complexidade dos doentes que recebe.
Luís Duarte Costa não tem dúvidas em desmontar uma ideia que considera redutora. “A interpretação desta realidade como uma mera ‘sobrecarga da Medicina Interna’ é tecnicamente incorreta”, afirma. O que se vive, descreve, é a “afluência contínua de doentes com patologia médica aguda, frequentemente associada a multimorbilidade, fragilidade e complexidade social”, uma realidade que “ultrapassa claramente a capacidade de resposta dos modelos organizativos em vigor”. A urgência é apenas o palco mais visível de uma disfunção que é transversal. A fragmentação do internamento, a ausência de uma liderança clínica claramente definida no percurso do doente e a “insuficiente corresponsabilização interserviços” são apontadas como raízes do problema.
O recurso sistemático a planos de contingência é, para os autores, a prova mais clara deste desequilíbrio. Embora sejam formalmente decisões hospitalares, continuam a assentar de forma desproporcionada nos recursos e na capacidade de resposta da Medicina Interna. “Como se um problema sistémico pudesse ser resolvido pelo esforço acrescido de uma única especialidade”, observa Duarte Costa, classificando esta lógica como “esgotada e insustentável”. As consequências são palpáveis: um desgaste profissional que se tornou crónico, condições de trabalho em deterioração e, de forma particularmente preocupante, uma “perda progressiva de atratividade” da especialidade para as novas gerações de médicos, vista como um sinal de alarme para a sustentabilidade do próprio sistema.
A proposta avança com um conjunto de princípios para uma “redefinição estrutural”. O primeiro é o reconhecimento formal da Medicina Interna como especialidade líder do internamento médico, com autoridade clínica e organizativa proporcional às suas responsabilidades. Mas este ponto é imediatamente balancedo por um segundo, igualmente crucial: a assunção institucional de que a resposta ao doente médico agudo é uma responsabilidade de todo o hospital, e não de um único serviço. Defendem modelos organizativos integrados que forcem o envolvimento efetivo de todas as especialidades, particularmente em contextos de contingência, e uma valorização profissional e formativa que inverta a atual fuga de internistas.
O tom do documento é de disponibilidade, mas também de exigência. “A Medicina Interna está disponível para assumir a liderança clínica que o hospital moderno exige”, lê-se na proposta. No entanto, esta liderança, alertam, só será eficaz se for “reconhecida, estruturada e sustentada por uma responsabilidade institucional partilhada”. A mensagem final é clara: gerir a crise já não chega. “O momento atual exige uma resposta diferente: institucional, integrada e orientada para o futuro”, defendem os autores. “A crise não pode continuar a ser apenas gerida. Deve ser enfrentada — e transformada.”
PR/HN/MM



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