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Ser português, acreditamos, é uma mistura de dados jurídicos, embrenhados em fusões genéticas complexas, com uma identidade cultural profunda, a expressão da língua portuguesa, conjugando-se a um povo que celebra a saudade e uma história milenar de navegação e abertura ao mundo.
Há quem nos descreva, como acolhedores e simpáticos em Portugal, como trabalhadores e humildes quando estamos fora do país.
Mas acredito que, de longe, nos entendam como um povo e um país que nunca aprende!
Marcados pelos eventos climáticos das últimas semanas, os portugueses podem recordar muitas catástrofes e desastres e erros graves que, custaram muitas vidas e recursos, mas que, na verdade, de nada servem como emenda, experiência adquirida ou ensinamento que nos defenda e menorize a repetição. A repetição que a História sempre produz…
Recordei o desastre ferroviário de Alcafache, perto de Nelas, em Viseu, em 1985.
Fez parte do meu Curso de Medicina de Catástrofe, poucos anos depois.
Foi o acidente ferroviário mais grave em Portugal, com a colisão de dois comboios a circularem a cerca de 100 km/h. As carruagens começaram a arder e muitos dos passageiros morreram presos e queimados ou asfixiados. Não foi possível determinar o número exato de vítimas mortais, admitiram-se 150, mas deverão ter sido mais de 200.
Foi erigido um monumento em memória das vítimas.
Em março de 2001, a Ponte Hintze Ribeiro, ligando Castelo de Paiva a Entre-os-Rios, colapsou. O acidente arrastou para as águas um autocarro de 53 passageiros e três carros, com seis pessoas a bordo. Ninguém sobreviveu. O então ministro Jorge Coelho demitiu-se.
No tribunal, o caso foi encerrado em 2006. O acórdão do tribunal concluiu que, “uma coisa é explicar o que se passou, outra, bem diversa, é prever o que se vai passar” e que, “as regras técnicas de que se fala no despacho de pronúncia são meros princípios e afirmações de caráter geral”. Ora, se não existiam normas técnicas que impusessem um modo concreto de agir aos arguidos, também não se verifica qualquer violação” …
Em fevereiro de 2010, a ilha da Madeira é assolada por fortes precipitações e pela subida do nível do mar, como nunca se registara em Portugal. Inundações e derrocadas ao longo das encostas da ilha, causam 47 mortes, 250 feridos e mais de 600 desalojados, resultante dos numerosos eventos verificados pela chuva extrema. A pluviosidade nesse dia bateu todos os registos históricos em Portugal!
E depois 2013, marcado também pelos incêndios rurais, com mais de 150 mil hectares de área ardida, mais trágico ainda pela perda da vida de 9 bombeiros em operações de combate e prejuízos quantificados em mais de 208 milhões de euros.
E ainda a seguir, Pedrógão Grande em Junho de 2017, contabilizando 66 mortes em menos de 24 horas e 45.000 hectares de área ardida em uma semana!
A conjugação de ventos do furacão ao largo da costa portuguesa e o conjunto de condições meteorológicas excepcionais provocaram um fenómeno raro e fatídico.
Para logo, em Outubro de 2017, se verificarem de novo condições meteorológicas anormais que promoveram o aparecimento de inúmeras ignições: mais de metade dos 440 mil hectares de área ardida durante esse ano e mais mortes, prejuízos acima de 500 milhões de euros!
E enfim, em 2018, a tragédia de Borba, com o deslizamento de terras em uma das várias pedreiras ao longo da estrada e que, causou a morte de 5 pessoas.
O país não aprende, não se prepara nem evita o risco de prejuízos, sofrimento e morte.
Mas pede ajuda e apoios, sem pensar que os outros percebem a nossa incapacidade e ignorância, como se a fábula da cigarra e da formiga lhes fosse estranha…
Uma sucessão de memória que, recordou muitas outras, bem mais antigas e dramáticas, antes e depois do 25 de Abril.
Mas para pensar no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
E não para falar das Urgências que abrem ou fecham.
Ou dos profissionais do SNS, os que o não chegam a ser, os que deixam de o ser.
E dos conselhos de administração que entram ou saem ou que, provavelmente nem deveriam ter sido nomeados.
Ou da Lei de Bases da Saúde, na sua versão vigente e que nunca deveria ter sido aprovada.
Ou da falta de liderança que faz com que, ninguém tome decisões corajosas e necessárias, em tempo útil, preferindo antes complicar o modelo funcional do SNS e nomear Comissões ou Grupos de Trabalho ou sistemas de direcção paralela, para quê?
Ou enfim, atirar dinheiro para cima do SNS como se isso algum dia bastasse!
Mas em Portugal, onde a cada tragédia, outra se segue, porque haveria o SNS de estar bem?


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