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Com a chegada do tempo mais frio, as pernas ficam ocultas sob camadas de roupa. Essa simples mudança no vestuário pode, contudo, gerar uma perigosa ilusão para quem sofre de Doença Venosa Crónica. A aparente redução dos derrames ou do edema leva muitos a descurar a condição, criando um cenário propício à sua progressão silenciosa. Luís Loureiro, Assistente Graduado de Angiologia e Cirurgia Vascular da Unidade Local de Saúde de Santo António, sublinha que se trata de um equívoco com consequências. “A doença está sempre lá. O facto de os sintomas se alterarem e o facto de não olharmos para as pernas não muda a realidade: a doença é crónica e progressiva”, afirma.
O frio provoca, de facto, uma vasoconstrição periférica, um mecanismo automático do corpo para conservar calor. Esse processo reduz temporariamente o calibre das veias mais superficiais, o que pode dar a sensação de alívio. “Há uma espécie de aparência de menos inchaço”, confirma Loureiro. No entanto, o especialista desfaz qualquer ideia de melhoria real. “A insuficiência, a incompetência das válvulas e das veias é mantida. A manifestação sintomática, isto sim, é que pode mudar.” O problema de base, a malfunção do sistema venoso, persiste inalterado.
A isso soma-se o efeito psicológico da menor exposição. Sem a visibilidade dos sinais nas pernas e sem os comentários de terceiros, comum no verão, o doente tende a relegar o problema. Tudo fica, como se costuma dizer, longe dos olhos e, consequentemente, longe da preocupação imediata. Esta combinação de fatores — a vasoconstrição e o ocultamento — cria uma armadilha. As medidas terapêuticas fundamentais acabam por ser negligenciadas precisamente quando deveriam ser mantidas.
A atividade física regular, por exemplo, é um pilar do controlo da doença. A contração da musculatura da barriga da perna funciona como uma bomba que auxilia o retorno venoso. No inverno, com a tendência para o sedentarismo e o conforto do sofá, esse estímulo crucial diminui. “Se eu fico mais quieto, se eu estou mais pelo sofá, se faço menos exercício porque não me preocupo tanto em controlar o meu peso, tudo isto vai provocar agravamento da doença”, explica o médico.
Outro hábito frequentemente abandonado é a hidratação cutânea. A pele do doente venoso, sobretudo quando há prurido, fica mais frágil e desidratada. No verão, a exposição leva a uma maior aplicação de cremes. Já nos meses frios, esse passo é muitas vezes ignorado. Loureiro nota que, principalmente as mulheres, “no inverno, por menos exposição dessa parte do corpo, muitas vezes saltam alguns passos, como a hidratação das pernas após o banho”. O banho quente, comum nesta época, remove parte da barreira lipídica natural da pele, tornando a reposição da hidratação ainda mais urgente.
Quanto às meias de compressão elástica, a sua utilidade não é sazonal. “A compressão elástica faz tão bem no inverno como no verão, é a base do tratamento da Doença Venosa Crónica”, reforça o angiologista. O mesmo princípio se aplica à medicação venoativa, que deve ser considerada numa perspetiva de tratamento contínuo, e não apenas pontual quando os edemas são visíveis.
A mensagem final é de alerta. Por ser uma patologia evolutiva, a sua gestão exige consistência. A ausência de cuidado durante uma estação pode significar um passo atrás no controle global da doença, permitindo a sua progressão e o eventual aparecimento de complicações mais sérias. A avaliação por um especialista mantém-se, por isso, como uma necessidade independentemente do tempo que se faz lá fora.
PR/HN/MM



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