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Perante a onda de intempéries que tem assolado o país, deixando um rasto visível de destruição material, surge agora uma resposta dirigida aos estragos menos aparentes, aqueles que se instalam no foro emocional. A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), em colaboração com a Direção-Geral da Saúde e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), lançou um guia prático destinado a ajudar a população a gerir o impacto psicológico destas crises.
O documento, intitulado “Como Recuperar Emocionalmente de Situações de Tempestade e Inundações?”, parte do princípio de que as reações de medo, choque, tristeza ou raiva são naturais perante a perda de segurança e de bens construídos ao longo do tempo. Há uma certa urgência, compreensível, em reparar os danos e voltar à normalidade, mas essa pressão pode, na verdade, conduzir a decisões precipitadas e arriscadas. A mensagem central é clara: a proteção da vida, própria e dos outros, deve prevalecer sobre qualquer outra preocupação imediata. Só depois se pode pensar em reconstruir.
As recomendações desdobram-se em várias frentes, sempre com a ressalva de que não existe uma forma certa ou errada de sentir; cada pessoa vive e processa a experiência à sua maneira e no seu tempo. Aceitar o turbilhão emocional, em vez de o ignorar, surge como um primeiro passo. Falar sobre o que se sente, mesmo que aos poucos, ou simplesmente partilhar um silêncio com alguém de confiança, pode aliviar o peso. Os autores do guia chamam ainda a atenção para a necessidade de moderar a exposição constante a notícias sobre a calamidade, que pode amplificar a ansiedade, sugerindo que se dê preferência a fontes oficiais e que se faça pausas quando a informação se tornar esmagadora.
Um capítulo particularmente sensível é dedicado às crianças e jovens, mais vulneráveis física e emocionalmente nestes contextos. Para além dos cuidados evidentes com a segurança física num ambiente ainda cheio de perigos ocultos, o guia enfatiza a importância da disponibilidade dos adultos. Um colo, um diálogo, ou simplesmente um olhar nos olhos que transmita presença, pode ser fundamental. É crucial validar os sentimentos dos mais novos, assegurando-lhes que o que sentem é natural e que a culpa dos acontecimentos não é sua. Evitar frases como “não te preocupes” é aconselhado, pois podem invalidar a sua experiência. Manter ou criar rotinas, mesmo que novas, oferece uma previsibilidade que acalma.
A recuperação, insiste-se, não tem um calendário fixo. Pode ser mais rápida para uns, mais morosa para outros. O essencial é não descurarem o próprio bem-estar, pois só assim se poderá cuidar dos demais. O guia termina com um apelo direto: se o mal-estar persistir, ou se se detetarem sinais de alarme, deve ser pedida ajuda sem hesitação. Como recurso, é indicado o Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24, através do número 808 24 24 24, e a plataforma online encontreumasaida.pt, onde se pode encontrar apoio profissional.
O guia completo está disponível para consulta e descarga no seguinte endereço: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/comorecuperaremocionalmentedetempestadeseinundacoes.pdf.



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