![]()
Um número que se impõe pela crueza: mais de meio milhar de mulheres, maioritariamente em idade fértil, foram identificadas como vítimas de mutilação genital feminina no Hospital Amadora-Sintra, entre setembro de 2015 e o final do ano passado. Os dados, avançados pela Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra, surgem a propósito do Dia Internacional da Tolerância Zero à MGF, que se assinala a 6 de fevereiro.
A maioria destas mulheres é natural da Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Senegal, Gâmbia, Nigéria, Gana e Congo, e foi submetida à prática, em graus variados de severidade, ainda durante a infância ou adolescência. Um dado que preocupa as autoridades de saúde e o Grupo de Trabalho Responsável pela MGF no Hospital Fernando Fonseca é o facto de, no mesmo período, terem nascido mais de 240 meninas filhas destas mulheres. Uma cifra que levanta o véu sobre o risco de a tradição se estender à geração seguinte.
Ana Paula Ferreira, diretora de Obstetrícia da ULSASI, contou que apenas nos dois últimos anos foram assinalados 128 novos casos. O perfil das mulheres é heterogéneo. Algumas residem em Portugal há longos anos, outras chegaram recentemente, muitas delas provenientes da Guiné. A deteção, explicou a médica, acontece sobretudo durante a gravidez, seja nas consultas de vigilância, seja já no momento da admissão para o parto, incluindo situações de mulheres que acabaram de entrar no país.
“Creio que algumas nem sequer têm noção de que têm mutilação”, admitiu Ana Paula Ferreira. É comum que não façam qualquer referência espontânea ao assunto. A revelação surge apenas quando questionadas, momento em que começam a relacionar problemas da sua vida íntima com a prática, como uma redução do prazer sexual. Nos casos mais severos, a dor durante o ato sexual é uma constante e o parto vaginal transforma-se num procedimento de risco elevado, com lacerações frequentemente mais extensas.
O tempo de internamento é, paradoxalmente, uma janela de oportunidade curta para um trabalho profundo. “Em média, só temos três dias para estar com essas senhoras”, lamentou a obstetra. É nesse intervalo entre o parto e a alta que a equipa tenta recolher a história clínica, perceber a idade em que a mutilação ocorreu e escutar as queixas silenciadas ao longo dos anos.
O passo seguinte é delicado. “Depois tentamos perceber se elas estão abertas a não realizar essa prática nas suas filhas e ensinar os filhos”, afirmou. Após a alta, o caso é referenciado para os cuidados de saúde primários através de uma plataforma nacional que regista mulheres e crianças potencialmente em risco.
Khatidja Amirali, enfermeira especialista e membro do grupo de trabalho do HFF, enfatizou a necessidade de uma abordagem que compreenda o contexto sociocultural, sem abdicar de informar sobre a lei portuguesa. “Não é fácil, choca-nos, principalmente quando percebemos que há uma intenção em continuar a prática, mas é importante não julgar para não perder a confiança”, defendeu.
A unidade de saúde alerta para os chamados períodos de maior risco, como as pausas letivas, quando as viagens ao país de origem da família podem ocultar a realização do ritual, por vezes sem o conhecimento da própria mãe. Daí a ênfase na articulação com as escolas e os cuidados de saúde primários, palcos onde se têm multiplicado ações de formação.
A mutilação genital feminina é definida como qualquer procedimento que envolva a remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos por razões não médicas. Em Portugal, constitui um crime público, uma forma de maus-tratos e uma violação dos direitos humanos. O trabalho no hospital da Amadora-Sintra é, assim, uma frente numa batalha mais vasta, que tenta travar, numa corrida contra o tempo e o silêncio, a transmissão intergeracional de uma violência gravada no corpo.
NR/HN/Lusa



0 Comments