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O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) reconheceu esta sexta-feira que a magnitude das cheias que assolam Moçambique desde janeiro excede em muito os recursos atualmente disponíveis. Num relatório técnico que traça um panorama severo, a agência lançou um apelo financeiro internacional no valor de 187 milhões de dólares, equivalentes a cerca de 158,7 milhões de euros, destinados a operações de socorro imediato.
O documento, que consolida dados até ao passado dia 3 de fevereiro, descreve um cenário de inundações persistentes a afetar vastas extensões do território, com particular gravidade nas regiões sul e centro. Aí, rios transbordaram, comunidades inteiras viram-se forçadas a deslocar-se e infraestruturas básicas – desde casas a escolas, centros de saúde e vias de comunicação – sofreram danos extensos ou ficaram totalmente destruídas. A resposta, coordenada entre entidades da ONU, parceiros humanitários e autoridades moçambicanas, tem-se debatido com limitações logísticas e financeiras palpáveis.
Números compilados pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) dão a medida da catástrofe: mais de 723 mil pessoas foram afetadas só desde meados de janeiro. Dessas, cerca de 75 mil permanecem alojadas em centros de abrigo, enquanto o balanço provisório de vítimas mortais se fixa em 23. O INGD regista ainda 145 feridos, nove desaparecidos e um impacto devastador no parque habitacional: mais de 3,5 mil casas parcialmente destruídas, 832 totalmente arrasadas e perto de 166 mil inundadas.
Face a esta realidade, a capacidade operacional no terreno mostra-se claramente insuficiente. O OCHA admitiu que, até ao momento, conseguiu prestar auxílio a apenas 90 mil indivíduos, num universo de 620 mil identificados como necessitando urgentemente de alimento seguro e outros apoios básicos. É essa lacera entre necessidades e meios que o chamado aditamento ao Plano Nacional Humanitário de Resposta a Cheias de 2026 pretende colmatar. A verba agora solicitada – da qual 55,5 milhões de euros se destinam a segurança alimentar e subsistência, e 24,1 milhões a abrigos e artigos não alimentares – visa assistir aproximadamente 600 mil pessoas nos próximos meses.
A situação obrigou o Governo moçambicano a decretar alerta vermelho nacional a 16 de janeiro, um sinal político da gravidade da crise. E a comunidade internacional começou a mover-se, ainda que a conta-gotas. Países como os Estados Unidos, membros da União Europeia – incluindo Portugal e Espanha –, Angola, Timor-Leste, Suíça, Noruega, Japão e China, além de nações vizinhas, já anunciaram ou enviaram carregamentos de ajuda de emergência.
No entanto, quando se amplia o olhar para toda a época das chuvas, iniciada em outubro, os números agravam-se ainda mais. O INGD contabiliza, no conjunto deste ciclo, 182 mortos, 289 feridos e quase 845 mil pessoas afetadas. São dados que revelam uma crise humanitária de contornos largos, a exigir respostas à altura. O apelo das Nações Unidas surge, assim, como um tentativa de travar o agravamento de condições que, em muitos distritos, mostram sinais de se poderem cronificar.
NR/HN/Lusa



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