ONU solicita fundos urgentes para conter crise humanitária das cheias em Moçambique

6 de Fevereiro 2026

A Organização das Nações Unidas alerta que a dimensão das inundações em Moçambique supera a capacidade de resposta, apelando à mobilização de 187 milhões de dólares para assistência vital a centenas de milhares de afetados

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) reconheceu esta sexta-feira que a magnitude das cheias que assolam Moçambique desde janeiro excede em muito os recursos atualmente disponíveis. Num relatório técnico que traça um panorama severo, a agência lançou um apelo financeiro internacional no valor de 187 milhões de dólares, equivalentes a cerca de 158,7 milhões de euros, destinados a operações de socorro imediato.

O documento, que consolida dados até ao passado dia 3 de fevereiro, descreve um cenário de inundações persistentes a afetar vastas extensões do território, com particular gravidade nas regiões sul e centro. Aí, rios transbordaram, comunidades inteiras viram-se forçadas a deslocar-se e infraestruturas básicas – desde casas a escolas, centros de saúde e vias de comunicação – sofreram danos extensos ou ficaram totalmente destruídas. A resposta, coordenada entre entidades da ONU, parceiros humanitários e autoridades moçambicanas, tem-se debatido com limitações logísticas e financeiras palpáveis.

Números compilados pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) dão a medida da catástrofe: mais de 723 mil pessoas foram afetadas só desde meados de janeiro. Dessas, cerca de 75 mil permanecem alojadas em centros de abrigo, enquanto o balanço provisório de vítimas mortais se fixa em 23. O INGD regista ainda 145 feridos, nove desaparecidos e um impacto devastador no parque habitacional: mais de 3,5 mil casas parcialmente destruídas, 832 totalmente arrasadas e perto de 166 mil inundadas.

Face a esta realidade, a capacidade operacional no terreno mostra-se claramente insuficiente. O OCHA admitiu que, até ao momento, conseguiu prestar auxílio a apenas 90 mil indivíduos, num universo de 620 mil identificados como necessitando urgentemente de alimento seguro e outros apoios básicos. É essa lacera entre necessidades e meios que o chamado aditamento ao Plano Nacional Humanitário de Resposta a Cheias de 2026 pretende colmatar. A verba agora solicitada – da qual 55,5 milhões de euros se destinam a segurança alimentar e subsistência, e 24,1 milhões a abrigos e artigos não alimentares – visa assistir aproximadamente 600 mil pessoas nos próximos meses.

A situação obrigou o Governo moçambicano a decretar alerta vermelho nacional a 16 de janeiro, um sinal político da gravidade da crise. E a comunidade internacional começou a mover-se, ainda que a conta-gotas. Países como os Estados Unidos, membros da União Europeia – incluindo Portugal e Espanha –, Angola, Timor-Leste, Suíça, Noruega, Japão e China, além de nações vizinhas, já anunciaram ou enviaram carregamentos de ajuda de emergência.

No entanto, quando se amplia o olhar para toda a época das chuvas, iniciada em outubro, os números agravam-se ainda mais. O INGD contabiliza, no conjunto deste ciclo, 182 mortos, 289 feridos e quase 845 mil pessoas afetadas. São dados que revelam uma crise humanitária de contornos largos, a exigir respostas à altura. O apelo das Nações Unidas surge, assim, como um tentativa de travar o agravamento de condições que, em muitos distritos, mostram sinais de se poderem cronificar.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

DGS regista subida da mortalidade fetal e infantil em 2024

Portugal registou em 2024 aumentos nos óbitos de fetos com mais de 22 semanas de gestação e nos óbitos de crianças nascidas vivas que faleceram com menos de um ano, segundo relatório da Direção-geral de Saúde (DGS).

VI Congresso da ATA debate saúde e movimento em Amarante

Auditório do Centro Cultural recebe, a 10 e 11 de abril de 2026, especialistas de várias áreas para refletir sobre o papel da atividade física no bem-estar biopsicossocial, numa organização da Associação Território de Afetos

APIFARMA debate futuro da vacinação em conferência no CCB

A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA) promove no dia 28 de abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a conferência “Preparar o Futuro | O Valor da Vacinação em Saúde”. O encontro, que assinala a Semana Europeia da Vacinação, conta com a apresentação de um estudo inédito sobre a perceção do valor das vacinas em Portugal

Doença silenciosa ameaça ser quinta causa de morte em 2050

A doença renal crónica, que muitas vezes não dá sinais, pode tornar-se a quinta principal causa de morte a nível mundial em 2050. O alerta foi deixado esta terça-feira pela diretora do Serviço de Nefrologia da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, a dois dias das comemorações do Dia Mundial do Rim e do 50.º aniversário da unidade

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights