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O sistema de saúde português operou em 2025 num estado de rutura normalizada, segundo a mais recente análise da Consumers Trust Labs, que escrutinou milhares de queixas formais de utentes. O Barómetro “O Estado da Saúde em Portugal – 2025”, elaborado a partir das 5.446 reclamações registadas no Portal da Queixa, desenha a imagem de um serviço público asfixiado e de um setor privado sob uma pressão inédita, incapaz de funcionar como rede de segurança eficaz. O aumento global de queixas, de 2,12%, é menos relevante do que a natureza crónica dos problemas identificados, agora enraizados no funcionamento quotidiano.
A distribuição das reclamações mostra uma clivagem significativa. Ao setor privado de saúde cabe a grande fatia do descontentamento, com 71,94% do total das ocorrências, o equivalente a 3.918 queixas. Já o Serviço Nacional de Saúde (SNS), embora com uma percentagem menor (28,06%, ou 1.528 reclamações), é palco das falhas consideradas mais graves. São queixas que tocam em questões como o acesso negado a cuidados, a dignidade humana posta em causa e falhas grosseiras de segurança clínica. No público, a má qualidade percecionada no atendimento clínico motivou mais de metade de todas as reclamações.
O ano ficou particularmente marcado pelo colapso recorrente das urgências hospitalares, com a área de Obstetrícia no centro de uma tempestade perfeita. Cerca de um quarto de todas as queixas contra o SNS prendeu-se com serviços de urgência, sendo que mais de um quarto destas tiveram origem em cuidados à grávida e ao recém-nascido. O verão, com os seus encerramentos rotativos de serviços e greves concatenadas de profissionais, transformou-se num período de tensão extrema. Os meses de julho e agosto registaram um aumento de 72,09% nas reclamações contra o setor público face a 2024, com casos amplamente divulgados de partos em ambulâncias e peregrinações forçadas de grávidas entre hospitais a alimentarem um clima de insegurança.
Do lado privado, a saturação tornou-se visível. A principal fonte de irritação para os utentes deixou de ser apenas o tempo de espera e passou a ser a fatura. A cobrança indevida, com alegações de serviços não prestados ou valores não acordados, lidera as razões de queixa, representando 24% do total. Este cenário foi agravado pelo conflito público entre os grandes grupos hospitalares privados e a ADSE, que ao longo de 2025 viveu momentos de grande instabilidade com a revisão de convenções e o risco de rutura. A confusão gerada transferiu-se diretamente para os beneficiários, que se viram confrontados com encargos financeiros inesperados e processos de reembolso mais complexos.
Até as urgências privadas, outrora refúgio para quem buscava resposta rápida, mostraram sinais de degradação. Em picos de crise no SNS, a procura disparou, levando a tempos de espera que, em alguns casos, ultrapassaram as quatro horas. Em agosto, algumas unidades privadas chegaram a registar picos de 200% no volume de reclamações relacionadas com a demora no atendimento de urgência.
Geografia não é destino, mas no mapa das reclamações as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto concentram a maior parte do descontentamento, reflexo direto da densidade populacional. Contudo, o distrito de Setúbal emergiu como um epicentro particularmente crítico, sofrendo de forma aguda e prolongada com o fecho intermitente de urgências obstétricas, o que obrigou utentes a deslocações forçadas para Lisboa.
Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa, não tem dúvidas em classificar a situação como um “falhanço claro da governação da saúde”. Na sua análise, o SNS foi “empurrado para uma rutura operacional” e o setor privado demonstrou não ter musculatura para absorver o colapso do público sem que a qualidade do seu serviço se ressentisse. “O resultado é um sistema desorganizado, imprevisível e um cidadão que perdeu confiança na capacidade do Estado em garantir cuidados de saúde básicos”, afirmou. Para 2026, Lourenço aponta a reconstrução dessa confiança como desafio máximo, algo que passará necessariamente por uma maior previsibilidade no acesso e por transparência nos processos.
O relatório completo, com a análise detalhada de 2025, está disponível para consulta em www.consumerstrust.co.
PR/HN/MM



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