Unicef solicita 28,8 milhões de euros para mitigar crise humanitária em Moçambique após cheias

6 de Fevereiro 2026

A agência das Nações Unidas para a Infância requer um financiamento de 34 milhões de dólares para operações de socorro nos próximos seis meses, num cenário onde mais de 723.500 pessoas já foram afetadas pelas inundações que assolam o país desde janeiro

A quantia, equivalente a 28,8 milhões de euros, destina-se a sustentar um plano de resposta centrado nas províncias de Gaza, Maputo e em algumas zonas de Sofala, regiões particularmente fustigadas. Cláudio Julaia, especialista de emergência da Unicef em Moçambique, explicou à Lusa que o financiamento é imperativo para alargar o raio de ação e o número de beneficiários. A prioridade imediata, disse, assenta em garantir o acesso à água potável e a saneamento básico adequado nos centros de acomodação, que atualmente albergam mais de 75 mil deslocados. Julaia notou, com certa apreensão, que o número de latrinas disponíveis se revela francamente insuficiente para a população deslocada, criando um caldo propício para surtos de doença.

Para fazer face a estas necessidades, a agência já mobilizou cerca de 100 toneladas de diversos materiais, direcionados sobretudo para Gaza e Maputo. Paralelamente, a assistência médica e o fornecimento de medicamentos constituem outro pilar crítico da intervenção, dada a vulnerabilidade acrescida das populações afetadas. O apoio ao setor da saúde nacional, com equipamentos e outros materiais, visa assegurar que os serviços se mantenham acessíveis. Mas o cenário é complexo e vai além das necessidades físicas imediatas. Nos centros de acolhimento, a Unicef tenta conter riscos de violência contra as crianças, providenciando atividades de ocupação. “Para que não sejam desviadas para outro tipo de situações que não estão favoráveis”, referiu o especialista, numa alusão a perigos como a exploração.

A educação é outra frente de preocupação. O atraso no início do ano letivo, consequência direta do desastre, é encarado pela organização como um “risco” significativo para o desenvolvimento das crianças. Enquanto se aguarda a normalização, a Unicef distribui kits para escolas, alunos e professores e promove atividades educativas informais. A meta, nas próximas semanas, é estender o apoio humanitário a pelo menos 30 mil crianças. Já em janeiro, a agência alertara que mais de metade das pessoas então afetadas eram menores, sublinhando o perigo de uma “espiral perigosa” caso o socorro fosse interrompido. Guy Taylor, responsável de comunicação da Unicef no país, tinha então destacado que o acesso a serviços básicos como água, saúde e educação se tornara “incerto ou inseguro”, expondo as crianças, sobretudo raparigas e adolescentes, a maiores perigos de doença e violação.

Os números da calamidade continuam a escalar. Dados atualizados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), a que a Lusa acedeu, indicam que as cheias afetaram já cerca de 170.248 famílias. O balanço parcial, desde 7 de janeiro, regista 145 feridos, nove desaparecidos e um património habitacional severamente danificado: 3.555 casas ficaram parcialmente destruídas, 832 foram totalmente arrasadas e outras 165.946 inundadas. No cômputo global desde o início da época chuvosa, em outubro, incluindo estes últimos episódios, a tragédia contabiliza 182 mortos, 289 feridos e uma impressionante marca de 844.932 pessoas afetadas, num país que parece respirar entre ciclones e inundações.

NR/HN/Lusa

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