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A operação quotidiana de cozinhar uma refeição tornou-se, de repente, um problema complexo para 1,5 milhões de famílias no Quénia. A empresa Koko Networks, que dominava o mercado de soluções de cozinha limpa no país, fechou as portas de forma abrupta. Os seus 3.000 pontos de venda, outrora comuns em bairros como Kibera, em Nairobi, estão agora silenciosos e inoperacionais, com muitos dos seus distintivos dispensadores de bioetanol já removidos.
Fredrick Onchenge, que geria um desses postos, descreve um cenário de perplexidade que rapidamente se transformou em preocupação material. “No início, fiquei confuso”, admitiu à Associated Press, “mas depois percebi o que tinha acabado de acontecer: o meu sustento tinha acabado”. As dezenas de clientes diários que costumava atender desapareceram, e as linhas telefónicas para os responsáveis da empresa permanecem mudas. O seu caso ilustra um rombo social e económico que se estende por todo o território queniano.
O modelo da Koko assentava numa troca acessível: os utilizadores adquiriam crédito através de uma plataforma móvel e trocavam garrafas de carvão ou querosene por bioetanol, um combustível mais limpo. O seu colapso deixa um vazio perigoso. Sem alternativa viável e imediata, muitas famílias enfrentam o dilema de regressar ao carvão vegetal, cuja combustão em ambientes fechados é uma fonte crítica de doenças respiratórias.
A dimensão do problema de saúde é avassaladora a nível continental. Dados da Agência Internacional da Energia, citados num relatório de 2025, indicam que a inalação prolongada de fumo de cozinha foi responsável pela morte de cerca de 815 mil pessoas em 2024. O mesmo documento estima que uma transição em larga escala para métodos de cozedura limpa poderia evitar até 4,7 milhões de mortes prematuras na África Subsariana até 2040, uma meta que requer, no entanto, investimentos avolumados.
As razões para o fim da Koko Networks são multifacetadas e mergulham em águas políticas e regulatórias turvas. David Ndii, conselheiro económico do Presidente queniano, caracterizou a situação como “excecionalmente multidimensional”. Em declarações à AP, referiu que a não renovação da licença da empresa em 2023 resultou de um emaranhado de fatores. Entre eles estão o enquadramento do Acordo de Paris, incertezas sobre a integridade dos créditos de carbono gerados pelos seus fogões, as políticas climáticas nacionais e até “considerações diplomáticas” não especificadas. O modelo de negócio da empresa e a sua transparência também foram postos em causa.
Enquanto outras autoridades contactadas se abstiveram de comentar, analistas externos não pouparam críticas à ruptura. Amos Wemanya, da consultora Power Shift Africa, lamentou profundamente o impasse e as suas consequências. “O tema da cozedura limpa no Quénia e em toda a África é uma crise grave”, alertou, sublinhando que a questão transcende metas ambientais. “Trata-se de desenvolvimento, saúde, dignidade e sobrevivência das famílias”, afirmou.
Nas comunidades, o sentimento é de desamparo. Uma utilizadora do serviço, ouvida pela agência noticiosa, resumiu o desalento com uma questão angustiante e retórica: “O que é que havemos de fazer? Voltar a usar carvão nas nossas casas? Então se era do fumo e das doenças que estávamos a tentar fugir…” A sua interrogação, ecoada por milhões, permanece sem resposta, enquanto o futuro do acesso a energia limpa para cozinhar no Quénia enfrenta uma incerteza profunda.
NR/HN/Lusa



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