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A confirmação chegara após dias de uma tensão silenciosa que se instalara entre os criadores da ilha de São Nicolau. O Ministério da Agricultura e Ambiente emitiu um comunicado oficial a anunciar o surto de peste suína africana, depois de suspeitas clínicas e da bateria de análises laboratoriais de praxe. A doença, insista-se, não oferece perigo para a saúde pública humana, mas nos animais assume uma taxa de mortalidade avassaladora.
O executivo cabo-verdiano, através da Direção-Geral da Agricultura, Silvicultura e Pecuária, afirma ter acionado de imediato um plano de contingência. Estão em vigor, segundo a nota, “medidas rigorosas de vigilância e controlo”, um eufemismo administrativo para um cerco sanitário de facto. Foi interdita a circulação de suínos das zonas identificadas como foco para qualquer outra área do arquipélago. O trânsito de pessoas nas explorações afetadas está proibido, salvo para funções estritamente necessárias, e a inspeção nos portos e aeroportos entre ilhas foi reforçada, numa tentativa de isolar o vírus.
No terreno, a ordem é clara: aplicar à regra as medidas de higiene e desinfeção. Fica absolutamente vedado o abate, o consumo ou a comercialização de animais doentes ou suspeitos. Uma diretiva que nem sempre é fácil de fazer cumprir numa realidade de pequena escala, onde as perdas económicas pesam de forma imediata e cruel no sustento das famílias. A sombra do último episódio, ocorrido há precisamente um ano na ilha da Boa Vista, em fevereiro de 2025, paira sobre a operação, relembrando a natureza recorrente do flagelo.
E a recorrência é, ela própria, um sintoma de um mal mais antigo. Os surtos periódicos de peste suína em Cabo Verde são frequentemente atribuídos, por técnicos e relatórios, a lacunas persistentes nos cuidados sanitários básicos na criação tradicional. Um problema estrutural que transforma a pecuária suinícola num setor vulnerável. A memória do abate sanitário massivo de mais de 2.500 animais em 2011, uma medida drástica para travar uma epidemia de maiores proporções, serve agora de referência sombria e de lição sobre os custos da prevenção falhada. O sucesso das atuais medidas dependerá, em grande parte, da capacidade de evitar que a história se repita.
NR/HN/Lusa



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