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A dor neuropática, uma condição crónica e complexa que nasce de uma lesão ou doença no sistema nervoso somatossensorial, representa um desafio clínico de grande magnitude. O seu impacto, contudo, raramente se confina à esfera sensorial. Até 80% dos doentes desenvolvem, a prazo, quadros de ansiedade ou depressão, criando um ciclo vicioso que agrava o prognóstico e mina a qualidade de vida. As terapias convencionais focam-se sobretudo na intensidade da dor, deixando muitas vezes os sintomas emocionais numa penumbra terapêutica. É neste contexto que a acupuntura, uma prática milenar agora integrada em protocolos globais de gestão da dor, tem vindo a ganhar terreno, não apenas pela ação analgésica mas também pelos benefícios observados no humor dos doentes. No entanto, os mecanismos cerebrais que sustentam esta ligação permaneciam amplamente desconhecidos.
Um estudo recente, conduzido por investigadores da Universidade de Medicina Chinesa de Shaanxi e publicado na revista Acupuncture Research, procurou desvendar parte deste enigma. A equipa partiu de uma premissa: sabendo que o córtex pré-frontal é uma região cerebral-chave na integração da perceção da dor e na regulação das emoções, será que a acupuntura atua modulando esta área? Para responder, os cientistas recorreram a um modelo murino de dor neuropática, induzida por ligação do nervo fibular comum. Os animais, de facto, exibiram não apenas sinais de hiperalgesia, mas também comportamentos consistentes com ansiedade e depressão em testes comportamentais como o labirinto em cruz elevado e o teste de suspensão pela cauda.
O protocolo de intervenção consistiu na aplicação diária de eletroacupuntura, durante sete dias, nos pontos “Yanglingquan” e “Xuanzhong” do membro posterior, classicamente usados no tratamento da dor. Os resultados, analisados com lupa, foram claros: o tratamento atenuou significativamente os comportamentos de ansiedade e depressão, sem alterar a locomoção geral dos animais. O cerne da descoberta, porém, surgiu quando a equipa mergulhou no nível celular. Utilizando ferramentas quimiogenéticas — uma técnica que permite ativar ou silenciar populações neuronais específicas de forma controlada —, os investigadores manipularam os neurónios glutamatérgicos (excitadores) no córtex orbital ventrolateral, uma sub-região do pré-frontal.
Quando estes neurónios foram ativados artificialmente, os ratos exibiram melhorias emocionais semelhantes às proporcionadas pela eletroacupuntura. Inversamente, quando a sua atividade foi inibida, o efeito terapêutico da eletroacupuntura desapareceu por completo. A análise por imunofluorescência corroborou estes dados, mostrando um aumento da ativação neuronal nesta área após o tratamento com agulhas. “A dor crónica não é apenas uma experiência sensorial — ela altera fundamentalmente os circuitos emocionais do cérebro”, afirmou um dos autores séniores do trabalho. “Os nossos resultados demonstram que a eletroacupuntura consegue recrutar diretamente os neurónios glutamatérgicos pré-frontais que se encontram suprimidos pela dor neuropática de longa duração. Ao restaurar a atividade deste circuito, sintomas emocionais como a ansiedade e a depressão podem ser atenuados.”
As implicações clínicas deste achado são palpáveis. Ao identificar um circuito neural concreto envolvido nas perturbações emocionais induzidas pela dor, o estudo abre portas para estratégias de neuromodulação mais precisas. A eletroacupuntura, enquanto intervenção de baixo risco e não farmacológica, pode oferecer uma via complementar para reduzir a dependência de antidepressivos ou opioides em doentes com comorbilidade de dor e alterações de humor. O trabalho, de resto, insere-se num esforço mais amplo da neurociência integrativa, que procura validar e otimizar técnicas terapêuticas tradicionais através da análise moderna de circuitos cerebrais, potenciando a sua translação para a prática clínica baseada em evidências. Fica assim um pouco mais claro como uma prática ancestral consegue, afinal, acalmar um cérebro em sofrimento.
Referência: DOI: 10.13702/j.1000-0607.20230755 | Fonte original: https://zhenciyanjiu.cn/thesisDetails#10.13702/j.1000-0607.20230755&lang=zh | Financiamento: Fundação Nacional de Ciências Naturais da China (No. 82205263); Programa de Investigação Básica de Ciências Naturais do Departamento de Ciência e Tecnologia da Província de Shaanxi (No. 2019JM-399).
NR/HN/AlphaGalileo



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