Alergias alimentares na infância: estudo global identifica confluência de fatores de risco

8 de Fevereiro 2026

Um vasto estudo da Universidade McMaster, com 2,8 milhões de crianças, revelou que uma conjugação de fatores genéticos, ambientais e microbianos nos primeiros anos de vida determina o risco de desenvolver alergias alimentares, descartando uma causa única. A investigação aponta fatores de prevenção e intervenção precoce

A maneira como o organismo de uma criança se decide, ou não, a travar uma batalha imunológica contra alimentos comuns começa a ser desvendada por uma investigação de escala sem precedentes. Uma análise global conduzida pela Universidade McMaster, no Canadá, que examinou dados de 2,8 milhões de crianças em todo o mundo, concluiu que o surgimento de alergias alimentares na infância é impulsionado por uma teia complexa de influências. Não há um único culpado, mas sim uma confluência – por vezes uma verdadeira tormenta perfeita – de predisposição genética, exposições ambientais precoces e a saúde da barreira cutânea e do microbioma.

Publicado na revista JAMA Pediatrics, o estudo sintetizou evidências de 190 investigações anteriores, incluindo aquelas que confirmaram diagnósticos através do padrão-ouro dos testes de provocação alimentar. Os resultados indicam que aproximadamente 5% das crianças desenvolvem uma alergia alimentar até aos seis anos de idade. A equipa, liderada por Derek Chu, professor do Departamento de Medicina da McMaster, foi meticulosa, vasculhando mais de 340 fatores potenciais para isolar os que de facto mostram uma associação consistente e mensurável.

Entre os elementos que se destacaram como amplificadores do risco, a presença de eczema no primeiro ano de vida revelou-se decisiva. Bebés com esta condição cutânea têm uma probabilidade três a quatro vezes maior de vir a sofrer de alergias alimentares. Problemas como sibilância ou rinite alérgica nessa fase também elevam o perigo. A herança familiar não pode ser ignorada: crianças com pais ou irmãos alérgicos estão mais suscetíveis, um risco que salta quando ambos os progenitores partilham historial do género.

Um dos achados que reforça mudanças recentes nas diretrizes pediátricas diz respeito ao momento da introdução de alimentos potencialmente alergénicos. O estudo confirma que adiar demasiado a oferta de amendoim, ovos ou frutos de casca rija pode ser contraproducente. Bebés que só contactam com amendoim após os doze meses de vida, por exemplo, mostram-se mais do que duas vezes mais propensos a desenvolver alergia a este legume. A janela de oportunidade parece ser precoce.

Outro factor que perturbou a equipa prende-se com o uso de antibióticos. A administração destes fármacos no primeiro mês de vida mostrou ter uma ligação clara com maior risco de alergia alimentar. O seu uso mais tardio na infância, ou mesmo durante a gravidez, também se associou a um aumento, ainda que mais modesto, da probabilidade. É como se a perturbação inicial do microbioma em formação deixasse marcas duradouras no sistema imunitário.

Curiosamente, a análise permitiu também afastar alguns mitos ou suspeitas. Factores como o baixo peso ao nascer, o parto pós-termo, a amamentação mista, a dieta materna durante a gravidez ou o stresse pré-natal não apresentaram uma associação significativa com o desenvolvimento posterior de alergias alimentares nas crianças. Esta clarificação é tão valiosa quanto a identificação dos fatores de risco.

Derek Chu sublinha que as descobertas realçam a natureza multifacetada do problema. “A genética, por si só, não consegue explicar totalmente as tendências das alergias alimentares”, afirmou o investigador, referindo-se a uma interação complexa entre genes, saúde da pele, microbioma e exposições ambientais. Para ele, o caminho futuro passa por estudos que meçam e ajustem estes fatores-chave de forma consistente, incluam populações mais diversas e utilizem mais frequentemente os testes de provocação alimentar para diagnósticos robustos. “Ensaio clínicos randomizados novos e diretrizes atualizadas são urgentemente necessários para transformar os nossos achados em ação prática”, defendeu Chu.

O trabalho, que procurou responder ao que verdadeiramente impele as alergias alimentares, foi financiado pelos Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde e pela Força-Tarefa Conjunta da AAAAI/ACAAI sobre Parâmetros de Prática em Alergologia. A sua dimensão oferece um mapa mais claro para identificar as crianças em maior risco e, assim, direcionar estratégias de prevenção precoce, tentando desarmar a tal “tempestade perfeita” antes que ela se forme.

Referência Bibliográfica:
Chu, D.K., et al. Early-Life Determinants of Food Allergy in Children: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Pediatr. (2026). https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/10.1001/jamapediatrics.2026.0001

NR/HN/AlphaGalileo

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