Depressão perinatal materna associada a traços autistas em meninas, revela estudo japonês

8 de Fevereiro 2026

Um estudo da Universidade de Tohoku com mais de 23 mil mães e filhos encontrou uma ligação entre sintomas depressivos no período perinatal e o aumento de traços relacionados ao autismo em crianças pequenas, com um risco particularmente acentuado nas meninas. A investigação, que incluiu experiências com ratos, aponta para uma via neurobiológica específica que pode explicar esta vulnerabilidade

Os primeiros meses de vida de uma criança, e até mesmo o período que os antecede dentro do útero, são frequentemente pintados com as cores suaves da felicidade materna. A realidade, contudo, é mais complexa e por vezes sombria. Uma equipa de investigadores japoneses traz agora dados concretos que evidenciam como o sofrimento psicológico das mães durante a gravidez e pós-parto pode ecoar no desenvolvimento das crianças, especialmente nas meninas. Uma investigação de larga escala, liderada pelo Dr. Zhiqian Yu e pelo professor Hiroaki Tomita do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Tohoku, estabelece uma associação preocupante entre a depressão perinatal e um risco aumentado de traços comportamentais relacionados com o autismo em crianças pequenas.

Os resultados, publicados na revista Molecular Psychiatry, emergem da análise de uma coorte impressionante: mais de 23 mil pares de mães e filhos inscritos no Tohoku Medical Megabank Project Birth and Three-Generation Cohort Study. Os cientistas mediram os sintomas depressivos das mães em diferentes fases — gestação inicial, gestação média e um mês após o parto — utilizando escalas validadas. De seguida, avaliaram os comportamentos das crianças aos três anos de idade. A correlação foi clara: pontuações mais altas de distress psicológico ou depressão pós-parto nas mães corresponderam a uma maior frequência de traços autistas nas crianças, medida pela escala Tóquio de Comportamento Autista (TABS).

O dado que mais surpreendeu os investigadores, contudo, não foi a simples existência desta ligação, mas o seu padrão desigual entre os sexos. Embora o autismo seja diagnosticado com mais frequência em meninos, o risco associado à depressão materna mostrou-se excecionalmente forte para as meninas. Para estas, a exposição ao sofrimento psicológico perinatal não só se correlacionou com traços mais marcados, mas também com um peso ao nascer mais baixo e uma ligação mãe-bebé mais fragilizada, avaliada por uma escala própria. Este resultado inesperado levanta questões profundas sobre como fatores ambientais precoces interagem de forma distinta com o cérebro em desenvolvimento de cada sexo.

Não contentes em apenas registar esta associação em humanos, os cientistas partiram para o laboratório. Criaram um modelo de stress pré-natal em ratinhos fêmea, que passaram a exibir comportamentos semelhantes à depressão e a prestar menos cuidados às crias. O paralelo com os dados humanos surgiu de forma quase espelhada: as crias fêmeas destas mães sob stress mostraram padrões comportamentais que mimetizam alguns aspetos do autismo, como uma higienização excessiva e uma dificuldade em reconhecer novidades sociais. A busca por uma causa molecular levou-os ao sistema da oxitocina, uma hormona fundamental para o vínculo e o comportamento social. Nas mães ratas, o stress reduziu a expressão de oxitocina em células específicas do cérebro; nas suas crias fêmeas, diminuiu a expressão dos recetores desta hormona no córtex pré-frontal.

Esta descoberta abre uma janela para um mecanismo biológico plausível. A perturbação na sinalização da oxitocina, transmitida de mãe para filha durante um período crítico do desenvolvimento, pode ser um dos fios que tecem a maior vulnerabilidade observada no estudo de coorte. É como se o cérebro das meninas fosse particularmente sensível a esta rutura num sistema chave para a sociabilidade. Importa sublinhar, e os autores são categóricos nisto, que o estudo não demonstra que a depressão perinatal cause autismo. O que ele mostra é uma ligação estatisticamente robusta e mecanicamente plausível entre o estado mental materno e o desenvolvimento de traços que podem condicionar o futuro da criança.

As implicações destes achados vão além da neurociência e tocam diretamente a prática clínica e a saúde pública. Eles reforçam, com dados robustos, a necessidade premente de rastrear e apoiar a saúde mental das gestantes e das novas mães, não apenas pelo seu próprio bem-estar, mas como um pilar fundamental para o desenvolvimento saudável dos filhos. O facto de as meninas poderem ser mais suscetíveis a este efeito específico clama por estratégias de intervenção precoce sensíveis ao sexo da criança. Em última análise, o estudo recorda-nos que cuidar das mães é, de forma indissociável, cuidar da próxima geração.

Referência Bibliográfica:
Duan, C., Yu, Z., Li, X., et al. Sex Differences in the Risk of Autistic-Related Traits in Toddlers Born to Mothers with Perinatal Depression: Evidence from Human Cohort and Mouse Study. Molecular Psychiatry (2026). Publicado a 4 de fevereiro de 2026. https://www.tohoku.ac.jp/en/press/maternal_depression_may_increase_risk_of_autism_in_girls.html

NR/HN/AlphaGalileo

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