E-Redes retém dados localizados de cortes de energia e remete informação apenas para autarquias

8 de Fevereiro 2026

A distribuidora elétrica vai fornecer números detalhados de clientes sem energia apenas às câmaras municipais, excluindo os órgãos de comunicação social. A medida surge após críticas de autarcas, que acusam a empresa de opacidade no rescaldo do temporal

A E-Redes decidiu canalizar para as câmaras municipais, em exclusivo, a informação detalhada sobre o número de clientes sem energia elétrica em cada concelho, na sequência dos estragos provocados pelo mau tempo. Os órgãos de comunicação social ficarão de fora deste fluxo informativo, tendo acesso apenas a dados de âmbito nacional ou das zonas mais afetadas.

A posição foi confirmada à agência Lusa por uma fonte oficial da empresa, que gere as redes de distribuição em Portugal Continental. “Os números por concelho serão divulgados às Câmaras Municipais assim que os tivermos”, afirmou a mesma fonte, acrescentando de forma perentória que “à comunicação social não há números por concelho”. A empresa garante que o serviço está a ser regularizado progressivamente, mas esta alteração no critério de divulgação marca uma rutura no padrão habitual.

A mudança ocorre num contexto de forte pressão de várias autarquias, que se têm queixado publicamente da falta de informação clara. Leiria esteve na linha da frente desse descontentamento. No último sábado, a câmara municipal e as vinte juntas de freguesia do concelho subscreveram uma carta aberta que criticava, com dureza, “a falta de informação objetiva, atualizada e acessível” por parte da distribuidora. O documento, lido pelo presidente Gonçalo Lopes, reconhecia o trabalho das equipas no terreno, mas sublinhava que, em situação de emergência, a comunicação é uma responsabilidade tão crucial quanto a intervenção técnica. Os autarcas pleiteiam o direito das populações a conhecer prazos, critérios de prioridade e constrangimentos.

O desagrado não se ficou por Leiria. Já este domingo, foi a vez da Marinha Grande escalar o tom. O presidente da câmara, Paulo Vicente, acusou a E-Redes de estar a retroceder nos progressos no concelho, um paradoxo que causou perplexidade. De acordo com os dados da autarquia, o número de clientes sem energia subiu de cerca de 3.900 na passada quarta-feira para 6.812 neste domingo, o que afeta sensivelmente 27% da população local. A câmara exigiu, em comunicado, a reposição urgente do serviço, transparência e um reforço imediato de meios, além da “assunção das responsabilidades aplicáveis, pelos danos materiais causados a famílias e empresas”.

Os cortes de energia são uma das faces mais visíveis da destruição deixada pelas depressões Kristin, Leonardo e Marta. O balanço, ainda provisório, é grave: catorze vidas perdidas desde 28 de janeiro, centenas de feridos e desalojados, e um rasto de prejuízos materiais avultados que inclui habitações destruídas, empresas atingidas e infraestruturas danificadas. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais fustigadas.

De manhã, a E-Redes informou que, pelas 08:00 de hoje, mantinha-se por resolver a situação de cerca de 66 mil clientes na área diretamente atingida pela depressão Kristin, num total de 76 mil em todo o território continental. O Governo, por seu lado, prolongou o estado de calamidade até 15 de fevereiro para 68 concelhos e anunciou um pacote de apoios que poderá chegar aos 2,5 mil milhões de euros. Enquanto isso, nas zonas mais isoladas, a falta de eletricidade persiste como um dos maiores incómodos do quotidiano, agravado por uma certa sensação de abandono informativo.

NR/HN/Lusa

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