![]()
Num discurso que traçou um fio condutor entre a resposta à intempérie e o exercício cívico, o Presidente da República fez um apelo vincado à participação eleitoral no domingo. A comunicação, difundida a partir do Palácio de Belém, surgiu como a sua primeira e única mensagem em vésperas de uma volta presidencial, ato que evitara há três semanas. Marcelo Rebelo de Sousa escolheu um tom particularmente direcionado aos cidadãos mais atingidos pelos temporais recentes, numa clara sobreposição entre a gestão do momento de crise e o ciclo eleitoral.
“Votar amanhã chama-se vencer a calamidade e refazer o nosso futuro. Votar amanhã chama-se liberdade. Votar amanhã chama-se democracia”, declarou, num encadeamento repetitivo que procurou enfatizar a ideia de superação. A sua fala delineou, sem meias palavras, um universo concreto de sofrimento: referiu-se aos que perderam familiares, casas, culturas agrícolas ou negócios, e aos que permaneceram isolados, sem serviços básicos, durante dias a fio. Agradeceu depois, de forma explícita, a “coragem” e a “determinação de não ceder” dessas pessoas, ligando-a ao facto de muitas terem já votado no dia de voto antecipado, realizado poucos dias após o pior da depressão Kristin.
Fez um paralelo histórico, quase como quem busca um alento na memória coletiva, ao recordar as presidenciais de 2021, realizadas no auge da pandemia de covid-19, com hospitais sobrecarregados e sem vacinas disponíveis. “Somos assim há 900 anos”, afirmou, construindo uma narrativa de resiliência nacional que, na sua visão, se renova agora perante a fúria climática. A mensagem serviu, assim, não apenas como incentivo à participação, mas como uma peça de enquadramento simbólico do ato eleitoral, elevando-o a um dever de afirmação colectiva perante a adversidade.
O chefe de Estado, que cessará funções a 9 de março, já anunciara que receberá o seu sucessor para um almoço de transição na segunda-feira seguinte ao escrutínio. Esta foi a décima primeira mensagem sua em vésperas de atos eleitorais, mas a primeira dedicada especificamente a uma eleição presidencial, fechando com ela um ciclo de intervenções deste género. O contexto em que surge é marcado pela declaração de situação de calamidade em 68 municípios e pelo adiamento do acto eleitoral em três concelhos e outras freguesias, consequência directa das tempestades que causaram 14 vítimas mortais. O apelo parece assim também querer contornar um possível abstencionismo motivado pelos estragos e pelo desânimo, inscrevendo o voto no domingo como um passo integral no processo de recuperação.
NR/HN/Lusa



0 Comments