Investigação europeia desvenda células imunitárias para travar cancro e inflamação crónica

8 de Fevereiro 2026

Uma rede científica europeia, coordenada a partir da Alemanha, reanalisou grandes volumes de dados moleculares para isolar a assinatura de um tipo específico de células do sistema imunitário, os mielóides. O objetivo é desenvolver ferramentas de diagnóstico mais precisas para doenças como o cancro. A colaboração, que envolveu mais de 300 especialistas, deu agora origem a um novo projeto de plataforma de análise de dados

O sistema imunitário age em duas frentes principais, uma rápida e inata, outra mais lenta e adaptativa. A sobrevivência aos primeiros dias de uma infeção depende crucialmente da resposta imediata e muitas vezes ignorada das células mielóides, verdadeiros bombeiros do organismo. Contudo, o seu comportamento em cenários de longa duração, como a inflamação crónica ou o desenvolvimento de tumores, permanecia uma paisagem científica cheia de interrogações. Foi este território por mapear que a Ação COST ‘Mye-InfoBank’ decidiu explorar, optando por um caminho pouco habitual: em vez de gerar dados novos, escavou nos gigantescos arquivos públicos de informação molecular já produzida pela ciência.

“Reaproveitar significa recuperar dados existentes e usá-los para novas questões científicas”, clarifica Sven Brandau, professor na Universidade Hospitalar de Essen e Chair da rede Mye-InfoBank. A analogia que encontra é simples: é como pesquisar na internet. “A informação é carregada por uma razão, mas há muitas formas diferentes de a procurar, combinar e interpretar. O mesmo se aplica aos dados moleculares.” A equipa, um consórcio improvável que juntou imunologistas, clínicos, bioinformáticos e responsáveis por biobancos, dedicou-se a filtrar essa massa de dados para extrair especificamente os perfis das células mielóides. O trabalho de curadoria e reanálise permitiu transformar ruído digital em sinais biológicos com potencial para se tornarem biomarcadores.

Na prática clínica, um biomarcador derivado desta investigação poderá, no futuro, indicar a um médico se um determinado doente com cancro ou doença inflamatória tem probabilidade de responder a uma terapia específica. Este conceito de estratificação de doentes afasta a medicina do paradigma único para todos. “Permite afastarmo-nos de tratamentos únicos”, confirma Brandau. Para os pacientes, traduz-se na promessa de cuidados mais personalizados; para os sistemas de saúde, na possibilidade de uma alocação de recursos mais eficiente.

O percurso da Ação não se limitou à produção de conhecimento científico. Teve um impacto palpável nas carreiras dos jovens investigadores que nela participaram. Nico Trummer, da Universidade Técnica de Munique, integrou o projeto durante a sua licenciatura. “No início senti-me um pouco sobrecarregado com todos os investigadores experientes à minha volta”, admite. A sua contribuição para o desenvolvimento de uma ferramenta padrão de análise de dados de transcriptómica de célula única, hoje usada globalmente, deu-lhe uma confiança precoce. “As pessoas crescem com responsabilidade, e a Ação deu-me essa oportunidade”, reflete.

Daniel Naumovas, da Universidade de Vilnius e atual Vice-Ministro da Saúde da Lituânia para a inovação e investigação, realça como a experiência moldou competências para lá do laboratório. “O conhecimento científico e as capacidades de discurso público ajudam muito”, observa, referindo que a sua participação o ajudou a melhorar a forma como comunica ciência. Já Michelle Camacho, investigadora venezuelana na Universidade Jaguelónica da Polónia, encontrou na rede uma estabilidade e um sentido de comunidade. As Missões Científicas de Curta Duração permitiram-lhe visitar laboratórios por toda a Europa e aprender novas técnicas. “Formei amizades e colaborações que continuam para além do projeto em si”, partilha.

Ebru Kocakaya, da Universidade Ege, descreve o encontro final em Hamburgo como um “autêntico reencontro familiar”, um momento que cristalizou o valor da rede humana construída. Esse espírito colaborativo está agora a ser canalizado para um novo capítulo. O legado do Mye-InfoBank materializa-se no projeto Omnicellscope, financiado por uma Bolsa de Inovadores COST. A ambição é criar uma plataforma acessível que combine diferentes tipos de dados de sequenciação genética para desvendar a composição celular de tecidos em doenças imuno-relacionadas. “O Omnicellscope permite-nos recuperar informação mais específica a partir de dados que já existem”, explica Sven Brandau. O projeto visa assim extrair valor adicional do imenso património de dados públicos, acelerando a descoberta.

A história do Mye-InfoBank ilustra como uma rede pan-europeia, falando uma linguagem científica comum, conseguiu dar um novo propósito a dados esquecidos em servidores, transformando-os em conhecimento partilhado com o potencial de, um dia, orientar decisões clínicas mais assertivas.

Referência bibliográfica:
Converting molecular profiles of myeloid cells into biomarkers for inflammation and cancer (Mye-InfoBank). COST Association. Disponível em: https://www.cost.eu/actions/CA18233 e https://myeinfobank.com/. Projeto derivado: Omnicellscope – https://www.cost.eu/innovators-grant/omnicellscope/

NR/HN/AlphaGalileo

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