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Os dados preliminares de um ensaio clínico de fase III realizado na China trouxeram um alento cauteloso ao campo da neuroproteção no AVC isquémico agudo. Apresentados durante a sessão de ciência emergente da International Stroke Conference 2026, da American Stroke Association, os resultados sugerem que a administração intravenosa de loberamisal, um agente de nova gação, pode melhorar os desfechos funcionais quando iniciada rapidamente após o evento.
O estudo multicêntrico, randomizado e controlado por placebo, conduzido entre julho de 2024 e abril de 2025, envolveu 998 adultos, com idades entre 18 e 80 anos, que sofreram um AVC isquémico moderado a grave. Os participantes receberam uma infusão diária de 40 mg de loberamisal ou de um placebo durante dez dias, com o tratamento a ter início dentro da janela crítica de 48 horas após o início dos sintomas. A esmagadora maioria dos doentes não recebeu terapêutica de reperfusão mecânica, e apenas cerca de 17% foi submetida a trombólise intravenosa padrão, o que, reconhecem os investigadores, limita a compreensão sobre os efeitos combinados.
Aos 90 dias, a avaliação através da escala modificada de Rankin (mRS) — onde uma pontuação entre 0 e 1 significa incapacidade mínima ou nula — mostrou uma diferença notável. Cerca de 69% dos indivíduos no grupo do loberamisal atingiram esse patamar de recuperação excelente, face a aproximadamente 56% no grupo de controlo. Uma divergência que não pareceu custar segurança adicional: o perfil de efeitos adversos graves ou mortalidade não se distinguiu do observado com o placebo.
Shuya Li, diretor do Centro de Ensaios Clínicos do Beijing Tiantan Hospital e autor principal do trabalho, comentou os dados com uma mistura de expectativa e prudência. “Os agentes neuroprotetores visam preservar a função das unidades neurovasculares, mas a história dos ensaios clínicos nesta área tem sido complexa, com muitos insucessos”, afirmou. “O loberamisal, uma molécula pequena com ação dual, mostrou-se eficaz em modelos pré-clínicos. Agora, estes resultados indicam um caminho promissor, talvez através de estratégias multitarget, para avanços na redução da incapacidade pós-AVC.”
A própria mais recente diretriz da American Stroke Association para o manejo precoce do AVC isquémico agudo, datada de 2026, já reflete um renovado interesse pelas abordagens neuroprotetoras, sinalizando a necessidade de colmatar lacunas de conhecimento. O estudo atual, contudo, transporta limitações inerentes que impedem extrapolações precipitadas. A população era exclusivamente chinesa, o que questiona a transposição dos efeitos para outras etnias. Além disso, não foram avaliados biomarcadores sanguíneos ou de imagem que pudessem desvendar os mecanismos fisiológicos subjacentes à ação do fármaco.
Li sublinhou a direção futura do trabalho. “Precisamos de confirmar estas observações em grupos mais vastos e diversos, incluindo doentes com AVCs mais graves e de diferentes origens raciais. É fundamental estudar biomarcadores em múltiplas populações para compreender verdadeiramente como o loberamisal opera,” referiu. O desenho do ensaio excluiu expressamente doentes submetidos a trombectomia mecânica, uma opção terapêutica standard em muitos centros, deixando em aberto uma questão prática crucial para a prática clínica futura.
A metodologia foi rigorosa: a randomização foi gerada por computador, num modelo duplamente cego, e a avaliação aos 90 dias foi conduzida por investigadores certificados, através de entrevista presencial ou questionário telefónico estruturado. Mesmo os 20 participantes que não completaram a avaliação final foram incluídos na análise estatística, seguindo o princípio da intenção de tratar.
O caminho desde os resumos apresentados em conferências até à publicação integral num periódico com revisão por pares é longo, e a própria American Heart Association alerta que as conclusões são preliminares. A comunidade científica aguardará, portanto, a divulgação do manuscrito completo para uma análise mais aprofundada. Se os dados se confirmarem, o loberamisal poderá representar um novo instrumento no arsenal terapêutico contra uma das principais causas de morte e incapacidade neurológica a nível global.
Referência bibliográfica:
American Heart Association Newsroom. Started within 48 hours of stroke, neuroprotective medication helped brain cells, recovery. 06 fev. 2026. Disponível em: https://newsroom.heart.org/news/started-within-48-hours-of-stroke-neuroprotective-medication-helped-brain-cells-recovery
NR/HN/AlphaGalileo



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