Revolução na farmacologia: cientistas propõem a Neg-entropia como alvo central para doenças crónicas

8 de Fevereiro 2026

Investigadores propõem um novo paradigma para o desenvolvimento de fármacos, argumentando que o alvo principal para doenças crónicas deve ser a "neg-entropia", ou seja, a capacidade do organismo de manter a ordem e contrariar a desorganização molecular que está na raiz destas patologias. O artigo foi publicado na revista Acta Pharmaceutica B

A descoberta de novos medicamentos para doenças crónicas, da diabetes às patologias cardiovasculares, tem esbarrado frequentemente na complexidade dos seus mecanismos moleculares. Um grupo de investigadores avança agora com uma perspetiva que pretende mudar radicalmente o foco da pesquisa farmacológica. Num artigo publicado na revista Acta Pharmaceutica Sinica B, os cientistas defendem que o verdadeiro alvo a combater não está num recetor ou enzima específica, mas sim num princípio universal da física aplicado ao corpo humano: o aumento da entropia, ou desordem, nos sistemas biológicos.

A ideia central, tão elegante quanto ambiciosa, é que as doenças crónicas são manifestações de uma crescente desorganização interna. O organismo, contudo, possui mecanismos inatos para contrariar essa tendência, processos que os autores designam como mecanismos “neg-entrópicos”. Estes incluem a homeostasia metabólica, a regulação imunitária e a capacidade de autorreparação. A proposta, portanto, é que os fármacos do futuro deverão ter como objetivo principal potenciar estas defesas naturais contra a entropia, em vez de se concentrarem de forma estreita em vias de sinalização doentias.

Para operacionalizar este conceito, a equipa introduz a noção de “head goose molecules” (HGMs), uma metáfora inspirada nos gansos-líderes que guiam o bando em formação. Estas moléculas, que poderão ser proteínas ou outras entidades, são identificadas como elementos decisivos e condutores dos processos neg-entrópicos. A sua descoberta é apresentada como um passo crítico. A intervenção farmacológica nas funções destas HGMs, argumentam os autores, poderá desencadear um efeito em cascata ou “nuvem” terapêutica (designada por “drug cloud” ou dCloud), reprogramando o curso da doença e atacando tanto os sintomas como as suas causas fundamentais.

O artigo não se fica pela teoria. Os investigadores sustentam a sua proposta com exemplos de fármacos já clinicamente comprovados e que, à luz desta nova ótica, atuariam precisamente sobre tais moléculas-líder, promovendo a restauração da ordem interna. Este eixo “HGMs–neg-entropia–dCloud” é apresentado como uma estratégia promissora para guiar a descoberta de uma nova geração de medicamentos. Trata-se de uma mudança de paradigma: sair do bloqueio de uma via específica para o restabelecimento global da ordem a partir da desordem no organismo do doente. A abordagem, se validada, poderá abrir novos e inesperados caminhos no longo e tortuoso combate às doenças que mais afetam as sociedades modernas.

A imagem gráfica que resume o conceito pode ser consultada em https://ars.els-cdn.com/content/image/1-s2.0-S2211383525007762-ga1.jpg. O trabalho completo, da autoria de Rui Li, Tian-Le Gao, Gang Ren, Lu-Lu Wang e Jian-Dong Jiang, está disponível online com o título “Neg-entropy is the true drug target for chronic diseases”.

<small>Rui Li, Tian-Le Gao, Gang Ren, Lu-Lu Wang, Jian-Dong Jiang, Neg-entropy is the true drug target for chronic diseases, Acta Pharmaceutica Sinica B, Volume 16, Issue 1, 2026, Pages 231-238, ISSN 2211-3835, https://doi.org/10.1016/j.apsb.2025.11.026</small>

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Humberto Alexandre Martins: “A profissão farmacêutica está em cada ato, independentemente do local”

Proximidade aos farmacêuticos, descentralização e formação contínua são os pilares do primeiro ano de mandato de Humberto Alexandre Martins à frente da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos. Em entrevista exclusiva, o presidente faz balanço do percurso, destaca visitas a ULS, o impacto das novas áreas formativas e anuncia avanços na articulação entre farmacêuticos e o SNS

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights