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O grito de alerta soou de Ferreira do Zêzere numa manhã cinzenta de fevereiro. A passagem da depressão Kristin, que há quase duas semanas varreu o país, deixou aqui uma ferida particularmente profunda e de cicatrização lenta, emperrada por uma dificuldade inesperada: a falta absoluta de quem pegue nas ferramentas. Perante a incapacidade de mobilizar recursos locais ou regionais, o presidente da Câmara Municipal, Bruno Gomes (PS), dirigiu-se esta segunda-feira às empresas de construção civil de todo o território nacional, num pedido urgente e incomum por ajuda técnica e humana.
“Sem equipas técnicas especializadas e reforço operacional imediato, muitas famílias continuarão expostas e a recuperação será demasiado lenta”, afirmou o autarca, num comunicado que mais parecia um SOS. A frase, seca, escondia o desgaste de dias a tentar coordenar esforços num terreno de batalha contra os elementos. A visita do Presidente da República, a presença de membros do Governo e as reuniões técnicas que se seguiram ao temporal pouco parecem ter alterado no concreto o dia a dia de centenas de pessoas. A ajuda, reconhece-se no município, chega a conta-gotas, lenta e desproporcionada face ao quadro desolador que se mantém.
E esse quadro é, na verdade, uma acumulação de pequenas e grandes tragédias. Muitos telhados continuam a descoberto, esventrados. As lonas distribuídas pela autarquia, fruto de campanhas de solidariedade, são uma solução precária, frequentemente arrancadas por rajadas de vento que teimam em persistir. As telhas que vão chegando, peça a peça, são uma esperança, mas esbarram num muro: não há quem as coloque. “Muitas famílias, maioritariamente envelhecidas, não têm capacidade física, técnica ou financeira para realizar as reparações, nem encontram profissionais disponíveis”, descreveu Bruno Gomes, tocando num nervo. A população do interior, envelhecida, fica duplamente vulnerável – primeiro pela intempérie, depois pela incapacidade de reagir.
No terreno, a logística é um pesadelo que se renova a cada dia. A energia elétrica, por exemplo, vive de soluções paliativas. Geradores foram instalados para injetar energia na rede, mas o seu funcionamento é irregular. O problema, garante a autarquia, não é a falta de combustível. É a dificuldade em fazê-lo chegar às máquinas, uma operação aparentemente simples que se transforma num quebra-cabeças logístico, resultando em cortes sucessivos que mergulham as freguesias em frio e escuridão. Nas comunicações, a situação começou a normalizar-se apenas após cinco dias de silêncio absoluto, um atraso que a câmara classificou sem rodeios como excessivo.
Enquanto isso, as equipas municipais, bombeiros, voluntários e técnicos da Segurança Social percorrem as localidades mais isoladas. Distribuem alimentos, roupa quente e tentam, na medida do possível, conter a ansiedade. Mas o que se precisa, insiste a nota da autarquia, são de corpos especializados. Eletricistas, carpinteiros, pedreiros, avaliadores de estruturas. Profissionais capazes de subir a um telhado, de estabilizar uma parede, de devolver, com gestos concretos, uma réstia de normalidade. O concelho tem mais de duas dezenas de deslocados e uma dezena de desalojados, números que falam de uma vulnerabilidade social e emocional em crescimento.
O drama de Ferreira do Zêzere inscreve-se no panorama mais vasto deixado pelas sucessivas depressões Kristin, Leonardo e Marta, que desde finais de janeiro causaram quinze vítimas mortais em Portugal. O Governo prolongou a situação de calamidade para 68 concelhos até 15 de fevereiro e anunciou um pacote de apoio avultado. No entanto, no interior do distrito de Santarém, onde a geografia já é por si um desafio, as verbas e as declarações de intenções esbarram numa realidade mais prosaica e urgente: a falta de um par de mãos hábeis para, finalmente, começar a reconstruir.
NR/HN/Lusa



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