Ferreira do Zêzere apela a construtores nacionais em desespero por mãos para reerguer o Concelho

9 de Fevereiro 2026

Mais de uma semana após a passagem da depressão Kristin, a escassez crítica de operários especializados paralisa a reconstrução em Ferreira do Zêzere, levando a autarquia a lançar um apelo nacional às empresas do setor. Famílias, muitas idosas, permanecem em casas danificadas e com energia intermitente

O grito de alerta soou de Ferreira do Zêzere numa manhã cinzenta de fevereiro. A passagem da depressão Kristin, que há quase duas semanas varreu o país, deixou aqui uma ferida particularmente profunda e de cicatrização lenta, emperrada por uma dificuldade inesperada: a falta absoluta de quem pegue nas ferramentas. Perante a incapacidade de mobilizar recursos locais ou regionais, o presidente da Câmara Municipal, Bruno Gomes (PS), dirigiu-se esta segunda-feira às empresas de construção civil de todo o território nacional, num pedido urgente e incomum por ajuda técnica e humana.

“Sem equipas técnicas especializadas e reforço operacional imediato, muitas famílias continuarão expostas e a recuperação será demasiado lenta”, afirmou o autarca, num comunicado que mais parecia um SOS. A frase, seca, escondia o desgaste de dias a tentar coordenar esforços num terreno de batalha contra os elementos. A visita do Presidente da República, a presença de membros do Governo e as reuniões técnicas que se seguiram ao temporal pouco parecem ter alterado no concreto o dia a dia de centenas de pessoas. A ajuda, reconhece-se no município, chega a conta-gotas, lenta e desproporcionada face ao quadro desolador que se mantém.

E esse quadro é, na verdade, uma acumulação de pequenas e grandes tragédias. Muitos telhados continuam a descoberto, esventrados. As lonas distribuídas pela autarquia, fruto de campanhas de solidariedade, são uma solução precária, frequentemente arrancadas por rajadas de vento que teimam em persistir. As telhas que vão chegando, peça a peça, são uma esperança, mas esbarram num muro: não há quem as coloque. “Muitas famílias, maioritariamente envelhecidas, não têm capacidade física, técnica ou financeira para realizar as reparações, nem encontram profissionais disponíveis”, descreveu Bruno Gomes, tocando num nervo. A população do interior, envelhecida, fica duplamente vulnerável – primeiro pela intempérie, depois pela incapacidade de reagir.

No terreno, a logística é um pesadelo que se renova a cada dia. A energia elétrica, por exemplo, vive de soluções paliativas. Geradores foram instalados para injetar energia na rede, mas o seu funcionamento é irregular. O problema, garante a autarquia, não é a falta de combustível. É a dificuldade em fazê-lo chegar às máquinas, uma operação aparentemente simples que se transforma num quebra-cabeças logístico, resultando em cortes sucessivos que mergulham as freguesias em frio e escuridão. Nas comunicações, a situação começou a normalizar-se apenas após cinco dias de silêncio absoluto, um atraso que a câmara classificou sem rodeios como excessivo.

Enquanto isso, as equipas municipais, bombeiros, voluntários e técnicos da Segurança Social percorrem as localidades mais isoladas. Distribuem alimentos, roupa quente e tentam, na medida do possível, conter a ansiedade. Mas o que se precisa, insiste a nota da autarquia, são de corpos especializados. Eletricistas, carpinteiros, pedreiros, avaliadores de estruturas. Profissionais capazes de subir a um telhado, de estabilizar uma parede, de devolver, com gestos concretos, uma réstia de normalidade. O concelho tem mais de duas dezenas de deslocados e uma dezena de desalojados, números que falam de uma vulnerabilidade social e emocional em crescimento.

O drama de Ferreira do Zêzere inscreve-se no panorama mais vasto deixado pelas sucessivas depressões Kristin, Leonardo e Marta, que desde finais de janeiro causaram quinze vítimas mortais em Portugal. O Governo prolongou a situação de calamidade para 68 concelhos até 15 de fevereiro e anunciou um pacote de apoio avultado. No entanto, no interior do distrito de Santarém, onde a geografia já é por si um desafio, as verbas e as declarações de intenções esbarram numa realidade mais prosaica e urgente: a falta de um par de mãos hábeis para, finalmente, começar a reconstruir.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

Cem anos de medicina no feminino celebrados em Coimbra

A Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos promove no dia 12 de março, pelas 18h30, uma tertúlia e inauguração de exposição que assinalam o centenário da presença feminina na medicina em Portugal, num evento híbrido com transmissão online a partir da Sala Miguel Torga, em Coimbra

“Epidemia silenciosa”: distúrbios do sono afetam 800 mil crianças em Portugal

No Dia Mundial do Sono, assinalado esta sexta-feira, dados revelam que cerca de 30% das crianças portuguesas enfrentam dificuldades para dormir, estimando-se que 40% apresentem distúrbios associados a hábitos precocemente consolidados. A coordenadora da Pós-graduação em Sono da Criança, Adolescente e Família, Joana Marques, classifica a situação como um problema de saúde pública negligenciado, com impacto direto na aprendizagem, memória e atenção dos mais novos. “O sono infantil não é um detalhe de rotina, é um pilar essencial para o desenvolvimento neurocognitivo e emocional”, sublinha, acrescentando que dormir mal pode potenciar obesidade, diabetes e alterações de comportamento. A privação de sono afeta também a saúde mental dos pais, limitando a capacidade de resposta ao stresse

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights