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No dia 23 de janeiro, após um episódio de mau tempo com descargas elétricas intensas, a eletricidade foi abaixo na zona onde resido, no Norte do país, na região do Porto. Quando o fornecimento foi reposto, ocorreu um pico de tensão com consequências imediatas e visíveis. Disjuntores dispararam em várias habitações, eletrodomésticos ficaram danificados, multiplicaram-se as avarias relatadas por vizinhos e a iluminação pública deixou de funcionar. Desde esse dia, e passadas várias semanas, as luzes da via pública continuam apagadas, sem qualquer intervenção no local.
Num dos pontos da rua, um candeeiro chegou mesmo a explodir, sinal inequívoco de instabilidade grave na rede elétrica.
No meu caso, a consequência foi ainda mais séria. Ocorreu um incêndio no quadro elétrico da habitação, tornando a casa inabitável. Desde o dia 23 de janeiro continuo a residir fora de casa. Apesar de vários contactos efetuados, de reportes submetidos no site da E-Redes, de tentativas repetidas através das linhas telefónicas disponibilizadas e de reclamações registadas no Portal da Queixa, não houve qualquer contacto por parte da E-Redes. Não houve explicação, não houve visita técnica, não houve avaliação da rede. O tempo passou e o silêncio manteve-se.
É importante sublinhar que não estamos numa zona declarada de calamidade, nem se registaram aqui danos tão extensos como os que tragicamente se verificaram em Leiria. No Norte, no meu caso em Gaia,o felizmente, o impacto foi mais localizado. Ainda assim, situações graves como a minha continuam completamente por resolver, sem comunicação institucional, sem acompanhamento técnico e sem qualquer assunção de responsabilidade. Nem sequer a persistência de falhas na iluminação pública, visível a todos, foi suficiente para gerar resposta.
É precisamente por isso que a comparação com Leiria se impõe. Se, num contexto localizado, com vários vizinhos afetados, danos em cadeia, incêndio numa habitação e iluminação pública inoperacional há semanas, não existe resposta nem presença no terreno, que capacidade real tem o sistema para responder quando estamos perante uma verdadeira calamidade? Se isto acontece longe dos grandes focos mediáticos, é inevitável imaginar o que vivem hoje as vítimas em territórios onde centenas de pessoas ficaram sem casa.
Em Leiria, como noutros episódios recentes, a resposta passou em grande medida pela criação de plataformas digitais para reporte de danos. Essa opção merece reflexão crítica. Em situações de crise, exigir que os cidadãos naveguem em sites, preencham formulários ou insistam em linhas telefónicas que não dão seguimento não é neutro. Para muitos, é uma barreira. A dificuldade em reportar prejuízos junto da E-Redes não é um detalhe técnico; é um fator de exclusão, sobretudo quando se está sem casa, sem segurança e sem respostas.
No meu caso, apesar da insistência por todas as vias disponíveis, não houve qualquer seguimento, nem para mim nem para os vizinhos que ficaram com eletrodomésticos inutilizados. A falha elétrica foi acompanhada por uma falha comunicacional e institucional que deixa os cidadãos entregues a si próprios, num circuito fechado de reportes que não geram ação.
Este não é apenas um problema técnico. É um problema político. A distribuição de energia elétrica é um serviço público essencial, concessionado pelo Estado, e como tal deve obedecer a princípios claros de segurança, prevenção, proximidade e responsabilidade. Quando há indícios consistentes de danos em cadeia após um pico de tensão, a resposta não pode depender da persistência individual do cidadão nem ficar confinada a plataformas digitais. A avaliação técnica no terreno devia ser imediata.
A isto soma-se o papel dos seguros que, em contextos de múltiplos sinistros, acumulam processos, atrasam peritagens e prolongam situações de ausência de habitação. Sem articulação entre entidades, quem fica no meio é sempre o cidadão, que vê a sua vida suspensa enquanto espera que alguém responda.
Tudo isto revela uma fragilidade maior. A prevenção continua a ser secundarizada. Redes envelhecidas, manutenção insuficiente, ausência de planos claros de resposta local e fraca articulação com autarquias e juntas de freguesia tornam o sistema vulnerável. Essa vulnerabilidade só se torna visível quando já é tarde.
O Estado não pode limitar-se a reagir depois do dano, nem esconder-se atrás de sites quando há pessoas a viver fora de casa ou ruas inteiras sem iluminação durante semanas. É necessário investir seriamente na prevenção, garantir respostas rápidas no terreno, criar mecanismos presenciais de apoio às vítimas e assegurar que ninguém fica para trás por falta de literacia digital.
O que me aconteceu no Norte continua sem resposta. Este texto é também um apelo à ação e à resolução concreta do meu caso e de todos os outros que permanecem esquecidos. Não como exceções, mas como sinais de um sistema que precisa de ser corrigido.


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