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A catástrofe que se abateu sobre a cidade sudanesa de Al-Fashir, com o seu cortejo de mortes e violência extrema, não foi um acaso inevitável. A afirmação, direta e carregada de uma frustração quase palpável, partiu do alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, durante uma sessão do respetivo conselho em Genebra. Türk assegurou que os avisos sobre o risco de atrocidades em massa naquela cidade sitiada foram emitidos durante mais de um ano, mas caíram no vazio.
As Forças de Apoio Rápido (RSF), grupo paramilitar, tomaram o controlo de Al-Fashir em outubro último. O que se seguiu, segundo múltiplos relatos e investigações, foi um período de terror. Türk, que visitou o Sudão em janeiro, encontrou-se com sobreviventes cujos relatos compõem um mosaico de horror. Pessoas profundamente traumatizadas, disse ele, descrevendo execuções sumárias, violência sexual sistemática, tortura e raptos para resgate. Uma das denúncias mais graves aponta para o assassínio de centenas de civis que buscavam refúgio no complexo da Universidade de Al-Fashir. Os ataques tinham, em muitos casos, um matiz étnico, visando especificamente comunidades não árabes como os zaghawa.
O gabinete do alto comissário reuniu provas consistentes através de cerca de 140 entrevistas. As conclusões, referiu Türk, alinham-se com as do Tribunal Penal Internacional, que indiciou as RSF pela prática de crimes de guerra e contra a humanidade naquela operação. A violência sexual, em particular, foi usada como arma de guerra de forma metódica, com relatos de violações em grupo contra mulheres e meninas.
O temor agora, e Türk não o disfarça, é que este padrão se repita noutra frente do conflito. Os olhos estão postos na região de Kordofan, onde os combates entre o exército sudanês e as RSF se intensificaram. Apesar de alguns cercos terem sido rompidos pelas forças governamentais, os ataques com drones continuam a ceifar dezenas de vidas civis. O risco de execuções arbitrárias, detenções e violência sexual persiste, criando um clima de medo constante.
Perante este cenário, o apelo de Volker Türk à comunidade internacional foi claro: é urgente travar o fluxo de armas para o Sudão. Ele insistiu na necessidade de alargar a todo o território nacional o embargo de armamentos que atualmente se aplica apenas à região de Darfur, com menção específica à proliferação de sistemas avançados de drones armados. A inação, advertiu, só trará o pior.
O Sudão vive mergulhado numa guerra civil desde abril de 2023, um conflito que desencadeou aquela que é considerada a maior crise humanitária do planeta. Cerca de 34 milhões de pessoas necessitam de assistência, metade das quais crianças. Os deslocamentos internos e para países vizinhos atingiram um pico de cerca de 14 milhões de indivíduos. As estimativas sobre o número de mortos variam, mas algumas fontes apontam para mais de cento e cinquenta mil. Dados recentes do Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar indicam que mais de 21 milhões de sudaneses enfrentam níveis graves de insegurança alimentar, numa população onde dois terços dependem urgentemente de ajuda externa para sobreviver.
NR/HN/Lusa



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