![]()
A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) decidiu avançar para uma petição pública onde exige mudanças na forma como o Estado português encara o tratamento farmacológico da obesidade. O documento, lançado esta segunda-feira e a que a Lusa acedeu, defende dois pontos fundamentais: a comparticipação dos fármacos conhecidos como agonistas do recetor de GLP-1 para pessoas com obesidade e elevado risco cardiovascular, mesmo na ausência de diabetes; e a eliminação das atuais restrições que limitam a prescrição desses medicamentos a apenas algumas especialidades médicas.
No fundo, os cardiologistas querem que a portaria recentemente alterada, que já alargou os critérios de comparticipação para doentes diabéticos, dê um passo mais largo. A presidente da SPC, Cristina Gavina, em declarações telefónicas, não desmereceu o alargamento decidido na semana passada, que baixou o índice de massa corporal necessário e passou a incluir doentes em alto risco, além dos com doença cardiovascular declarada. “Foram boas notícias, sem dúvida”, comentou. No entanto, o cerne do problema, na sua visão, continua por resolver.
“As limitações na prescrição mantêm-se”, apontou Gavina, referindo-se à portaria que só permite a médicos de Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Endocrinologia e Pediatria prescreverem com comparticipação. “Isto cria constrangimentos reais. Não é só a Cardiologia, são a Nefrologia, a Neurologia… especialidades que acompanham doentes com patologia estabelecida e que podiam perfeitamente fazê-lo”, explicou, com um tom de frustração percetível. Para ela, a norma ignora a realidade prática dos hospitais e das consultas.
O argumento científico é o grande motor da petição. A SPC invoca uma evidência que, garantem, se tornou “muito robusta” nos últimos dois anos. “Está em todas as recomendações internacionais”, insistiu a cardiologista. Estudos clínicos demonstraram que estes fármacos, para além de promoverem uma perda de peso clinicamente relevante, melhoram parâmetros de risco e, mais importante, reduzem efetivamente eventos maiores como enfartes ou AVCs em doentes cardiovasculares com obesidade. O benefício, sublinha, ocorre “independentemente do nível de perda de peso” alcançado.
Há aqui uma nuance crucial que a especialista se esforça por clarificar. O medicamento mais conhecido, cuja procura para fins estéticos criou problemas de acesso para diabéticos, é apenas um deles. “É a mesma molécula, mas numa dose diferente”, disse, referindo-se a outros fármacos da mesma classe especificamente aprovados para a obesidade. A petição defende a comparticipação destes, quebrando a ligação automática entre o financiamento estatal e o diagnóstico de diabetes.
Cristina Gavina traça um cenário que vai para além da cardiologia. A obesidade, lembra, é uma doença crónica complexa, um fardo metabólico que acaba por lesar múltiplos órgãos. “Não é uma questão só de estética, ou física, para a pessoa sentir menos peso nas articulações”, argumentou. “É uma questão metabólica e acaba por ter consequências no rim, no fígado e no coração”. Perder peso com ajuda farmacológica pode significar melhor controlo da tensão arterial, do colesterol e da glicose, criando um efeito de dominó positivo.
A longo prazo, a perspetiva da SPC é de que comparticipar estes tratamentos é um investimento. “Acabaria por reduzir a despesa em saúde com estas pessoas no futuro”, afirmou Gavina, ecoando alertas recentes da própria Organização Mundial da Saúde sobre a urgência de tratar a obesidade. Reconhece que o ideal seria uma prevenção eficaz que evitasse a doença. Mas, uma vez instalada, a obesidade torna-se um problema de saúde teimoso. “É praticamente impossível a pessoa sozinha conseguir perder peso e corrigir todas as coisas que vêm junto”, concluiu, defendendo que o SNS deve oferecer todas as ferramentas disponíveis, incluindo a farmacológica, para um combate que é, na sua essência, médico.
NR/HN/Lusa



0 Comments