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HN – Um estudo da FMUP confirmou os primeiros casos de Candida auris em Portugal. Enquanto investigadora especializada em leveduras, qual é a importância desta descoberta para a comunidade científica e para o sistema de saúde público?
CP – O estudo coordenado por investigadores da FMUP confirmou, efetivamente, os primeiros casos de infeção da corrente sanguínea por Candida auris em Portugal. No entanto, o primeiro caso de colonização por Candida auris, tal como indicado no próprio estudo, remonta a 2022, tendo sido descrito num trabalho coordenado pelo INSA e publicado na mesma revista em agosto de 2023. A principal diferença reside no facto de, dos oito casos agora identificados, três corresponderem a infeção e não apenas a colonização, sendo que os isolados clínicos apresentavam resistência a todas as classes de fármacos antifúngicos atualmente disponíveis no mercado. Esta descoberta vem apenas reforçar aquilo que há muito se antecipava, à semelhança do que tem sido observado noutros países: a necessidade de estarmos em alerta para a possibilidade de infeção por esta levedura.
HN – A Candida auris é descrita como tendo um comportamento particularmente complicado. O que torna esta levedura tão distinta e problemática em comparação com outras espécies de Candida, como a Candida albicans?
CP – Candida auris tem a particularidade de conseguir colonizar a pele humana, ao contrário de Candida albicans, que prefere o trato gastrointestinal e vaginal. Além disso, Candida auris é muito resistente a desinfetantes e detergentes e consegue resistir à dessecação, podendo, por isso, sobreviver durante longos períodos em superfícies hospitalares. Esta combinação de características faz com que seja facilmente transmitida de pessoa para pessoa, tendo já sido associada a vários surtos hospitalares em todo o mundo.
HN – O estudo português detetou casos de colonização e de infeção. Do ponto de vista molecular, como é que a investigação básica em leveduras ajuda a compreender essa transição de um estado de simples colonização para uma infeção invasiva e potencialmente fatal?
CP – Todas as espécies de Candida com potencial para causar doença coexistem de forma pacífica connosco, colonizando-nos e integrando a nossa microbiota. No entanto, em situações de debilidade do indivíduo, estas leveduras podem aproveitar-se para se multiplicarem excessivamente, penetrar no organismo e atingir a corrente sanguínea e órgãos vitais. Por esse motivo, são consideradas agentes patogénicos oportunistas, uma vez que, nessas condições, provocam doença (infeção). Não é, por isso, de estranhar a sua elevada incidência nas unidades de cuidados intensivos. Para além da debilidade do indivíduo, existem fatores intrínsecos à levedura que promovem a transição de um colonizador inócuo para um agente infecioso letal. A investigação básica em leveduras permite-nos perceber quais são esses fatores e, no futuro, desenhar estratégias mais eficazes para bloquear essa transição. Existe já muita investigação nesta área, nomeadamente no desenvolvimento de novos antifúngicos que visam diminuir a virulência do fungo.
HN – Defendeu uma “investigação translacional integrada”. Na prática, como é que o trabalho de um laboratório de biologia molecular fundamental, como o seu no ITQB NOVA, se pode articular com os hospitais para fazer face a uma ameaça como a C. auris?
CP – A deteção precoce de C. auris (colonização ou infeção) é, sem dúvida, essencial para que possam ser implementadas medidas de segurança e reduzida a probabilidade de surgimento de surtos. A nossa experiência em Biologia Molecular permitiu que, no ITQB NOVA, durante a pandemia de COVID-19, desenvolvêssemos um teste rápido e económico para a deteção da infeção pelo vírus SARS-CoV-2. De momento, estamos a adaptar essa metodologia para a deteção de candidemias (infeção da corrente sanguínea por Candida) em tempo real. Um teste rápido e de baixo custo teria um impacto determinante no controlo da ameaça representada por C. auris em unidades hospitalares. A validação deste teste passará, obrigatoriamente, por um diálogo estreito com os hospitais.
HN – Um dos grandes desafios é a resistência a antifúngicos. Para além da vigilância, que caminhos promissores está a investigação básica a explorar para contornar esta resistência e desenvolver novas armas terapêuticas?
CP – Contornar a resistência a antifúngicos implica obrigatoriamente o desenvolvimento de novas drogas com mecanismos de ação inovadores, ou seja, que atuem no fungo de forma diferente dos fármacos atualmente disponíveis. Este processo não é fácil, uma vez que os fungos, a nível celular, partilham grandes semelhanças connosco, tornando desafiante criar uma droga seletiva, capaz de eliminar o fungo sem ser nociva para o ser humano. Este é um dos desafios que levamos muito a sério no ITQB NOVA. Em conjunto com colegas da área da química, estamos neste momento a desenvolver várias moléculas com atividade muito promissora contra Candida, incluindo C. auris. O desenvolvimento de algumas destas moléculas só foi possível graças a trabalhos prévios de investigação fundamental, nos quais descobrimos mecanismos para ultrapassar as resistências atualmente existentes.
HN – O ECDC reportou um aumento significativo de casos na Europa. Perante esta tendência, que medidas de biossegurança e controlo ambiental considera mais críticas para os hospitais portugueses implementarem ou reforçarem de imediato?
CP – Vigilância e monitorização são sem dúvida as palavras de ordem.
HN – Qual é, na sua perspetiva, o próximo passo mais urgente na investigação sobre a Candida auris em Portugal após este primeiro mapeamento de casos?
CP – Não só em Portugal, mas também no resto do mundo, o próximo passo mais urgente passa pelo desenvolvimento de métodos rápidos de deteção para prevenir surtos, bem como pela implementação de estratégias de mapeamento epidemiológico, de forma a compreender a sua origem e tentar contê-los.
Entrevista MMM




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