Especialistas alertam para uso crítico da inteligência artificial na saúde

10 de Fevereiro 2026

O uso não crítico da IA na saúde, sobretudo em diagnóstico, foi alertado por Ricardo Baptista Leite, da Health AI, numa conferência no Iscte. A integração responsável da tecnologia, que surpreendeu pela sua evolução, esbarra na lentidão dos sistemas

A convicção de que a inteligência artificial não deve ser um oráculo cego nos domínios da saúde, particularmente quando se trata de diagnósticos e opções de tratamento, marcou o debate promovido esta terça-feira pelo Iscte Executive Education, em Lisboa. Ricardo Baptista Leite, líder da Health AI – Agência Global para a Inteligência Artificial Responsável, não poupou nas reservas. Para ele, a verdadeira questão não está no aparato tecnológico em si, que avança a um passo estonteante, mas na forma desarticulada como os sistemas de saúde o absorvem. Existe, notou, uma perceção cada vez mais aguda entre médicos e enfermeiros sobre os riscos de uma adoção acrítica.

O evento, que reuniu uma centena de profissionais do setor, serviu para escavar essa tensão entre a promessa transformadora e os entraves práticos. Baptista Leite defendeu uma mudança de fundo no perfil dos profissionais. As competências baseadas na mera memorização de dados estão a ficar obsoletas, argumentou, dando lugar a uma necessidade premente de análise crítica. Só assim se poderá navegar com segurança no novo ecossistema digital. Mais do que meros utilizadores, os clínicos devem ter um assento ativo na mesa de desenho onde se concebem as aplicações de IA e se redefine a própria engrenagem dos serviços de saúde.

A surpresa com a velocidade da revolução foi um ponto comum. Arlindo Oliveira, professor do Instituto Superior Técnico e presidente do INESC, admitiu que o meio científico também foi apanhado desprevenido. Há uma década, ninguém no seu círculo previa que os modelos de linguagem chegariam a discutir temas complexos ou a auxiliar em decisões médicas. Contudo, o cerne do problema deslocou-se. A tecnologia, garante, já não é o principal fator limitativo. O grande desafio, espinhoso e moroso, é a sua integração nos processos existentes. Um hospital pode levar anos a assimilar verdadeiramente uma nova ferramenta, envolvendo adaptação de protocolos, formação de pessoas e superação de resistências culturais.

A conversa derivou naturalmente para o impacto desta disrupção na formação das próximas gerações. Como equipar médicos e engenheiros para um futuro permeado por algoritmos? Para Arlindo Oliveira, não há respostas simples ou manuais fechados. O equilíbrio é delicado. Cair na tentação de reduzir o ensino à arte de criar prompts para sistemas de IA seria um erro redondo. Mas, por outro lado, as instituições académicas ainda não definiram com clareza que conhecimentos tradicionais podem ser recalibrados. O investigador trouxe à tona outra camada de complexidade: a maioria destes sistemas aprende com dados históricos, o que pode perpetuar enviesamentos e levanta questões espinhosas sobre responsabilidade civil e transparência. Quem responde quando um algoritmo falha?

Com moderação de José Crespo de Carvalho, a conferência inscreveu-se na aposta estratégica da instituição na área da Gestão e Inovação em Saúde. O objetivo foi claro: posicionar o Iscte como um fórum onde se debate, sem ingenuidade tecnológica, o caminho para uma transformação digital que coloque as pessoas no centro. O tom foi de alerta, mas não de alarme. Reconheceu-se o potencial imenso da inteligência artificial, mas deixou-se um aviso gravado: a sua trajetória deve ser constantemente interrogada pela lente da ética e pelo primado do cuidado humano. O ritmo da mudança técnica é, afinal, muito mais rápido do que a evolução da sabedoria prática necessária para a governar.

PR/HN/MM

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