![]()
A convicção de que a inteligência artificial não deve ser um oráculo cego nos domínios da saúde, particularmente quando se trata de diagnósticos e opções de tratamento, marcou o debate promovido esta terça-feira pelo Iscte Executive Education, em Lisboa. Ricardo Baptista Leite, líder da Health AI – Agência Global para a Inteligência Artificial Responsável, não poupou nas reservas. Para ele, a verdadeira questão não está no aparato tecnológico em si, que avança a um passo estonteante, mas na forma desarticulada como os sistemas de saúde o absorvem. Existe, notou, uma perceção cada vez mais aguda entre médicos e enfermeiros sobre os riscos de uma adoção acrítica.

A surpresa com a velocidade da revolução foi um ponto comum. Arlindo Oliveira, professor do Instituto Superior Técnico e presidente do INESC, admitiu que o meio científico também foi apanhado desprevenido. Há uma década, ninguém no seu círculo previa que os modelos de linguagem chegariam a discutir temas complexos ou a auxiliar em decisões médicas. Contudo, o cerne do problema deslocou-se. A tecnologia, garante, já não é o principal fator limitativo. O grande desafio, espinhoso e moroso, é a sua integração nos processos existentes. Um hospital pode levar anos a assimilar verdadeiramente uma nova ferramenta, envolvendo adaptação de protocolos, formação de pessoas e superação de resistências culturais.
A conversa derivou naturalmente para o impacto desta disrupção na formação das próximas gerações. Como equipar médicos e engenheiros para um futuro permeado por algoritmos? Para Arlindo Oliveira, não há respostas simples ou manuais fechados. O equilíbrio é delicado. Cair na tentação de reduzir o ensino à arte de criar prompts para sistemas de IA seria um erro redondo. Mas, por outro lado, as instituições académicas ainda não definiram com clareza que conhecimentos tradicionais podem ser recalibrados. O investigador trouxe à tona outra camada de complexidade: a maioria destes sistemas aprende com dados históricos, o que pode perpetuar enviesamentos e levanta questões espinhosas sobre responsabilidade civil e transparência. Quem responde quando um algoritmo falha?
Com moderação de José Crespo de Carvalho, a conferência inscreveu-se na aposta estratégica da instituição na área da Gestão e Inovação em Saúde. O objetivo foi claro: posicionar o Iscte como um fórum onde se debate, sem ingenuidade tecnológica, o caminho para uma transformação digital que coloque as pessoas no centro. O tom foi de alerta, mas não de alarme. Reconheceu-se o potencial imenso da inteligência artificial, mas deixou-se um aviso gravado: a sua trajetória deve ser constantemente interrogada pela lente da ética e pelo primado do cuidado humano. O ritmo da mudança técnica é, afinal, muito mais rápido do que a evolução da sabedoria prática necessária para a governar.
PR/HN/MM



0 Comments