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A morte de Maria Paula Meneses, anunciada este domingo pela família, deixou um vazio nos círculos académicos de Portugal e de Moçambique. A investigadora, que tinha 62 anos, faleceu no Instituto de Oncologia de Coimbra, cidade onde residia e trabalhava há anos. A confirmação veio da filha, Sofia Meneses Cassimo, que falou de uma “luta grande” contra a doença, mas também de serenidade perante a partida de quem “cumpriu com grandiosidade a sua missão”.
O seu percurso biográfico espelha uma rede de saberes e geografias pouco comum. Nascida em Maputo a 8 de abril de 1963, Meneses formou-se em História na Universidade de São Petersburgo, na então União Soviética, e doutorou-se em Antropologia pela Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos. Esse trajecto cruzado moldou-lhe um olhar singular, capaz de escapar aos cânones mais previsíveis. Em Coimbra, onde se radicou como investigadora principal e coordenadora no prestigiado Centro de Estudos Sociais (CES), integrava a linha “Europa e o Sul Global: patrimónios e diálogos” e era uma peça fundamental do colectivo das Epistemologias do Sul.
A sua ausência é já profundamente sentida. Boaventura de Sousa Santos, director emérito do CES, referiu-se a ela como uma “colaboradora excepcional” e uma amiga próxima, realçando o seu papel na construção de um pensamento alternativo. Outras vozes, como a do escritor moçambicano Boa Monjane, foram mais longe ao descrevê-la como uma das “maiores referências intelectuais” de Moçambique. Já o cientista político brasileiro Leonardo Avritzer sublinhou na rede social X, antigo Twitter, o que considerava ser o seu traço mais distintivo: “um conhecimento amplíssimo sobre processos sociais em África e uma crítica implacável à maneira como as ciências sociais no ocidente assumem uma superioridade epistémica”.
A sua carreira foi, de facto, um contínuo questionar dessa hierarquia do saber. Os seus estudos debruçaram-se sobre o pluralismo jurídico em contextos africanos, as narrativas históricas oficiais e as memórias subterrâneas que contestam identidades monolíticas. Era uma presença activa e crítica em universidades moçambicanas, mantendo laços fortes com a Universidade Eduardo Mondlane e a Universidade Pedagógica de Maputo, espaços onde, segundo a filha, “sempre procurou continuar a dar o seu contributo”.
Autora de uma vasta produção bibliográfica, com livros e artigos publicados em vários países, a sua sala no CES era um ponto de passagem obrigatório para estudantes de doutoramento e colegas de todos os continentes. Coordenava, com a investigadora argentina Karina Bidaseca, o curso internacional ‘Epistemologias do Sul’, formando novos pensadores na senda de um projecto intelectual que buscava validar saberes marginalizados.
Os arranjos para o último adeus estão a ser feitos em Portugal, longe da sua terra natal. O velório e o funeral acontecerão no Crematório Municipal de Coimbra, segundo um programa enviado pela família à agência Lusa. A decisão de ficar por ali, no local que acolheu o seu labor intelectual mais produtivo, parece fechar um ciclo. Mas o seu legado, como escreveu Monjane, continua vivo num “verdadeiro exército de intelectuais” que ela ajudou a formar. Fica a obra, a crítica tenaz e uma certa maneira de olhar para o mundo a partir do Sul, que dificilmente será esquecida.
NR/HN/Lusa



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