O som que inclui: Coimbra acolhe colóquios e concerto sobre audição

10 de Fevereiro 2026

A Semana do Som da UNESCO chega a Coimbra a 19 de fevereiro com colóquios sobre saúde auditiva na infância e no envelhecimento, e um concerto com obras de Beethoven e de uma percussionista surda. A iniciativa é organizada pela associação Ouvir e pela Orquestra Clássica do Centro

Coimbra prepara-se para um dia em que o som será mais do que um fenómeno acústico, transformando-se em tema de reflexão médica e em ponte para a inclusão. No próximo dia 19 de fevereiro, o Pavilhão Centro de Portugal, no Parque Verde do Mondego, será palco de uma iniciativa dupla: colóquios que esmiúçam o papel do som no desenvolvimento infantil e na qualidade de vida dos mais velhos, seguidos de um concerto pensado para ecoar essas mesmas preocupações. A sessão integra a edição portuguesa da Semana do Som da UNESCO, coordenada pela Ouvir – Associação Portuguesa de Portadores de Próteses e Implantes Auditivos, que percorre várias cidades.

Na apresentação do programa, Luís Filipe Silva, médico otorrinolaringologista e membro da comissão coordenadora local, não usou rodeios. O foco, disse, estará nas “pessoas que têm dificuldade em partilhar este parâmetro importante de socialização e aprendizagem, que é o som”. Silva, com uma longa experiência de mais de três décadas no trabalho com surdos profundos e ligado a um projeto de implantes cocleares, garantiu que a tecnologia terá o seu espaço na conversa. A par dele, Emília Martins, presidente da direção da Orquestra Clássica do Centro (OCC), traçou o perfil do concerto que se seguirá aos debates.

O espetáculo musical foi concebido como uma extensão do tema. No programa, a Quarta Sinfonia de Beethoven, compositor que lutou contra uma surdez progressiva, e “A Little Prayer”, peça da percussionista Evelyn Glennie, que possui uma deficiência auditiva severa desde a adolescência. Haverá ainda espaço para Bach, num momento que contará com o intérprete Russell Tyler, que utiliza um implante coclear. A escolha das obras não foi, claro, inocente. Mas a organização quis fugir a um tom excessivamente explicativo, preferindo que a música falasse por si, numa lógica de experiência partilhada.

Os colóquios, por seu lado, terão um carácter mais analítico. O primeiro mergulha na “necessidade e a importância do som para as crianças”, um território onde, nas palavras de Luís Filipe Silva, “o som modela a criatura humana”. O segundo painel, dinamizado pela neurologista Isabel Luzeiro, abordará “como o som contribui para a qualidade do envelhecimento”. Durante a apresentação, Luzeiro frisou ter convidado participantes capazes de uma troca efetiva de experiências, salientando um problema concreto: o isolamento frequentemente vivido pela população idosa, que reduz drasticamente os estímulos da fala e da audição, com tudo o que daí advém.

Há, contudo, uma nuvem no horizonte, e ela é bem literal. Os recentes dias de chuva intensa inundaram partes do Parque Verde do Mondego, colocando sob interrogatório a utilização do pavilhão. Emília Martins admitiu a possibilidade de ter de se arranjar um espaço alternativo caso o estado do tempo não permita a realização do evento no local previsto. A esperança é que o céu de fevereiro colabore, permitindo que o programa decorra como planeado. O acesso será gratuito, um pormenor que os organizadores não consideram menor, na sua aposta numa democratização do debate sobre a audição.

PR/HN/MM

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