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INTRODUÇÃO
O encerramento da urgência de ginecologia e obstetrícia no concelho do Barreiro não
apanhou ninguém verdadeiramente desprevenido: era um desfecho que se vinha
desenhando há demasiado tempo, à medida que a resposta se tornava dependente de
rotatividade e de soluções de contingência. Foi anunciado no quadro de uma
reorganização das urgências do SNS, com concentração da urgência obstétrica
regional no Hospital Garcia de Orta (Almada), prevendo-se o início em março de 2026,
e com Setúbal a manter a urgência para a resposta do INEM e para a cobertura do
Litoral Alentejano.
A ministra da Saúde justificou a decisão afirmando que a urgência no Barreiro “vai
fechar porque não tem condições para se manter aberta”, referindo o “esforço
desumano” imposto aos profissionais, e garantindo que “vão continuar a nascer bebés
no Barreiro”, com partos programados e de baixo risco.
A tese que defendo é simples: centralizar pode ser clinicamente necessário para
proteger equipas e reduzir risco, mas não pode significar, na prática, uma diminuição
do direito a cuidados em tempo útil num território em expansão habitacional e
populacional (Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo). Quando se fala de obstetrícia,
cada minuto e cada quilómetro contam — e a equidade não se decreta, constrói-
se.
DESENVOLVIMENTO:
1) Segurança clínica não se faz com exaustão
É difícil contestar o ponto de partida: uma urgência obstétrica aberta “a todo o custo”,
sustentada por escalas no limite e por rotatividade, não é uma garantia de qualidade
— é um fator de risco.
A própria tutela reconheceu que a situação exigiu um “esforço desumano” dos
profissionais e que o processo foi discutido com clínicos, não sendo “um improviso
administrativo”. Como opinião, considero que esta é uma admissão relevante: quando
o sistema precisa de heroicidade contínua para funcionar, já não estamos no domínio
do excecional, mas do estrutural.
A centralização, contudo, só é clinicamente virtuosa se vier acompanhada de
capacidade real e redundante no ponto de concentração: equipas completas,
anestesiologia disponível, resposta cirúrgica, neonatologia e circuitos bem ensaiados.
Caso contrário, trocamos uma urgência fragilizada por outra sobrecarregada —
e a população fica apenas com a perceção de perda, sem o benefício concreto
de maior segurança.
2) “Partos programados” não anulam o risco do imprevisível
A garantia política de que “vão continuar a nascer bebés no Barreiro”, através de
partos programados e de baixo risco, é importante, mas insuficiente se for usada como
argumento de tranquilização sem condições explícitas. A obstetrícia ensina-nos que
“baixo risco” descreve uma probabilidade, não uma certeza. Hemorragia,
hipertensão grave, sofrimento fetal, trabalho de parto rápido ou complicações do
puerpério podem surgir de forma abrupta — e o desfecho depende do tempo de
resposta e da coordenação entre níveis de cuidados.
Aqui, o problema não é apenas onde se faz o parto; é o desenho do percurso
assistencial integrado completo: vigilância pré-natal, acesso à urgência, transporte,
transferência inter-hospitalar e seguimento pós-parto. Se a urgência obstétrica no
Barreiro encerra, então toda a região de Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo,
precisa de vias claras e comunicadas, com critérios de referenciação e com
mecanismos que protejam as pessoas mais vulneráveis: quem tem menos
transporte próprio, menos apoio familiar, menor literacia em saúde, ou horários
laborais que penalizam deslocações longas.
3) A equidade territorial paga-se com governação — e com voz política
Uma reorganização desta magnitude não é apenas um ato de gestão na saúde ou
hospitalar: é uma decisão de política pública com impacto direto na confiança no
Serviço Nacional de Saúde (SNS). E é aqui que o “silêncio” (quando existe) dos atores
com poder local se torna também parte do problema. No final de 2024, existiam cerca
de 235.155 utentes inscritos. Numa área composta por quatro municípios —
Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo — a representação efetiva e a articulação
intermunicipal deveriam ser visíveis, consistentes e exigentes, sobretudo quando há
reconfiguração de respostas críticas.
Sem entrar no detalhe do “quem” ou do “quando” (porque isso exige escrutínio
documental completo), a mensagem política é clara: quando o território perde uma
urgência obstétrica, não pode perder também a capacidade de influenciar, monitorizar
e exigir garantias. Governação sem presença torna-se decorativa; e, em saúde, o
decorativo custa caro.
4) “Bombeiros parteiros”: quando a exceção ameaça virar norma
O debate público tem trazido uma ideia que, a meu ver, deve ser encarada com
frontalidade: a de que, se a rede falha e as equipas (incluindo das VMER – Viaturas
Médica de Emergência e Reanimação e as SIV – Ambulâncias de Suporte Imediato de
Vida) são difíceis de constituir, acabaremos por “criar” de facto novos papéis — como
“Técnicos de Emergência Obstétrica e Ginecológica” — ou por normalizar “bombeiros
parteiros”.
Existem notícias e relatos sobre formação e treino de bombeiros para lidar com partos,
incluindo iniciativas formativas reportadas na comunicação social. Também tem sido
noticiado que o país tem assistido a dezenas de partos em ambulância, e que os
próprios bombeiros alertam para limites de formação e para o risco de serem
empurrados para situações para as quais não devem ser a linha de substituição
do sistema.
Dito de forma simples: sim, é essencial que as equipas pré-hospitalares saibam agir
perante um parto iminente — isso é segurança básica. Mas transformar o parto em
ambulância num “modelo” significa aceitar a falha do acesso em tempo útil como
inevitável. E isso é uma derrota ética e organizacional: desloca risco para profissionais
que não escolheram esse âmbito como missão principal, e coloca mães e recém-
nascidos numa trajetória em que o sucesso depende mais da sorte do que do desenho
do sistema.
- CONCLUSÃO
A centralização da urgência obstétrica regional pode ser o caminho certo para proteger
equipas e aumentar segurança, mas só será legítima se vier acompanhada de
medidas que preservem proximidade, equidade e transparência.
O Governo anunciou que pretende criar um Quadro Global de Referência do SNS até
2028, com novos indicadores e objetivos assistenciais; este é, portanto, o momento de
exigir que a reorganização seja medida, auditada e comunicada com dados públicos.
Proponho quatro compromissos práticos e verificáveis para a Península de Setúbal:
Publicar tempos-alvo e desempenho real (resposta pré-hospitalar, tempos de
chegada, transferências, desfechos) com reporte regular e acessível ao
cidadão.
Garantir vias obstétricas regionais com protocolos claros, simulação
interinstitucional e planos de contingência para picos de procura e falhas de
escala.
Proteger a continuidade de cuidados em Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo
(vigilância, partos programados em condições seguras, seguimento pós-parto,
articulação com cuidados de saúde primários), evitando que a “programação”
esconda fragilidades na resposta a complicações.
Reforçar a governança local: posição intermunicipal clara, representação
efetiva e exigência pública de metas, em vez de silêncio e normalização do
“fecho” como inevitável.
Impõe-se repensar a reorganização não como um mapa novo de urgências, mas como
um contrato de segurança e equidade com as pessoas. Num território que cresce, a
resposta pública não pode encolher sem compensação real. E na obstetrícia, mais
do que em quase qualquer outra área, o preço de não planear paga-se em
minutos.
TRANSPARÊNCIA
Afiliação: O autor é enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação e em
Enfermagem Médico-Cirúrgica, mestre em Cuidados Paliativos, pós-graduado em
Gestão em Saúde, Gestão de Projetos, e em Gestão na Administração Pública,
docente universitário, formador e perito em e-conteúdos e desenvolvimento
profissional. Interesse académico e formativo em ética, liderança, saúde e bem-estar
laboral, qualidade vida profissional, felicidade no trabalho, ambientes de trabalho
saudáveis, inteligência artificial ao dispor do profissional de saúde e do cidadão,
ambientes promotores de boa prática, segurança e qualidade em saúde.
Conflitos de interesse: Declaro não ter conflitos de interesse financeiros; a posição
expressa é de natureza técnico-ética e cívica.
Referências Bibliográficas:
1. HealthNews. (2026, fevereiro 24). Urgência de obstetrícia do Barreiro encerra.
Ministra garante partos programados. https://healthnews.pt/2026/02/24/urgencia-
de-obstetricia-do-barreiro-encerra-ministra-garante-partos-programados/
2. Pires, D. (2025, outubro 29). “É menina” Bombeiros vão à escola para assistir a
partos. TSF. https://www.tsf.pt/portugal/artigo/e-menina-bombeiros-vao-a-escola-
para-assistir-a-partos/18014377
3. CNN Portugal. (2024, setembro 13). “As dores eram muitas, pensei que ia morrer”.
Este ano já houve mais de 40 partos em
ambulância. https://cnnportugal.iol.pt/sns/partos-em-ambulancia/as-dores-eram-
muitas-pensei-que-ia-morrer-este-ano-ja-houve-mais-de-40-partos-em-
ambulancia/20240913/65034989d34e94b829051f2b
4. Câmara Municipal do Montijo. (2025, julho 9). Proposta n.º 1636 — Indicação de
vogal do Conselho de Administração da ULS Arco
Ribeirinho [Documento/PDF]. https://www.mun-
montijo.pt/cmmontijo/uploads/document/file/19960/proposta_n_o_1636___indicaca
o_de_vogal_do_conselho_de_administracao_da_uls_arco_ribeirinho.pdf


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