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O vírus do sarampo continuou a circular com força em vários países europeus ao longo do ano passado, escavando brechas em grupos populacionais com vacinação incompleta. Segundo o relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) divulgado esta segunda-feira, foram confirmados 7.655 casos na União Europeia e Espaço Económico Europeu. O balanço, ainda que preliminar, revela uma queda significativa face a 2024, mas o número mantém-se preocupantemente acima dos valores de 2023. A doença causou oito mortes: quatro em França, três na Roménia e uma nos Países Baixos.
Portugal, nesse panorama continental, registou 21 casos confirmados em 2025. Cerca de metade dessas infeções ocorreram no mês de março, um pico sazonal que não surpreende os especialistas. Os dados nacionais, alinhados com os da Direção-Geral da Saúde (DGS), indicam que estes casos se concentraram nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Centro, estando ligados a origens importadas ou a cadeias de transmissão iniciadas por viajantes. Metade das pessoas infetadas em território nacional não estava vacinada.
A verdade é que, olhando para o retrato mais amplo, a esmagadora maioria das infeções acontece entre os não vacinados. No total europeu, perto de 80% dos doentes não tinham recebido qualquer dose da vacina. A estatística desagua numa realidade crua: onde a imunização de grupo fraqueja, o vírus, de transmissibilidade extremamente alta, aproveita-se. As crianças com menos de cinco anos foram as mais afetadas, representando 40% do total, seguidas dos adultos com 15 ou mais anos, com 35%. Um dado que espelha, possivelmente, falhas acumuladas de vacinação em certas coortes.
Apesar dos números, Portugal situa-se numa posição confortável devido às suas elevadas coberturas vacinais, que se mantêm estáveis há anos. A taxa para a primeira dose ronda os 99% e para a segunda os 96%, valores acima do limiar de 95% considerado necessário para garantir proteção coletiva e cortar cadeias de transmissão. Esta é uma muralha que tem protegido o país de surtos de grande escala, mesmo com a entrada esporádica de casos. A DGS já havia reconhecido, em dezembro, que a introdução de casos importados era expectável, afastando, contudo, o cenário de epidemias explosivas.
O ECDC aproveitou a divulgação do relatório para lançar um apelo direto aos cidadãos. “Como o número de infeções normalmente atinge o pico no final do inverno e início da primavera, agora é a hora de todos verificarem o seu estado da vacinação contra o sarampo”, pode ler-se no comunicado. A mensagem é clara: a prevenção está disponível e é eficaz. Sabrina Bacci, responsável pelo programa do ECDC para doenças evitáveis por vacinação, não esconde a ambição. “A Europa deveria liderar o mundo na eliminação do sarampo. Temos uma vacina altamente eficaz e segura, além do conhecimento, dos recursos e de algumas das ferramentas de vigilância mais robustas”, afirmou.
A estrada para a eliminação, porém, mostra-se acidentada. A Roménia liderou, de longe, o número de casos em 2025, com 4.198 notificações, seguida de França (877), Países Baixos (534), Itália (529) e Espanha (426). Apenas Malta, Islândia e Liechtenstein não reportaram qualquer infeção confirmada. O sarampo, com o seu cortejo de febre alta, erupção cutânea e potencial para complicações severas como pneumonia ou encefalite, prova que basta um pequeno recuo na vigilância para ressurgir. E a sua sombra alonga-se, sobretudo, sobre os que, por idade ou condição clínica, não podem ser vacinados e dependem da imunidade dos outros para permanecerem a salvo.
A doença, sabe-se, espalha-se com uma facilidade desarmante através de gotículas no ar ou pelo contacto com secreções. Por isso a insistência das autoridades de saúde: verificar o boletim de vacinas, sobretudo antes de viagens internacionais ou da aglomeração em grandes eventos, é um gesto simples com um impacto coletivo profundo. O relatório está disponível para consulta no site do ECDC, servindo de termómetro para uma batalha de saúde pública que está longe de terminar.



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