Tempo de ecrã excessivo eleva riscos para saúde mental em crianças, revela estudo

10 de Fevereiro 2026

Um estudo com mais de 50 mil crianças nos EUA associa quatro ou mais horas diárias de exposição a ecrãs a maior prevalência de problemas psicológicos. A ligação é mediada pela redução de atividade física e por padrões de sono inadequados

Um estudo publicado na revista Nature Portfolio no dia 9 de fevereiro de 2026 traz dados concretos sobre um receio já comum entre pais e médicos. A análise de informações de mais de 50.000 crianças e adolescentes norte-americanos, com idades entre 6 e 17 anos, demonstrou que a exposição a ecrãs por quatro horas ou mais a cada dia está associada a uma probabilidade maior de diagnósticos de saúde mental. As conclusões apontam que esse hábito está ligado a um aumento de 61% no risco de depressão, 45% para ansiedade, 24% para problemas comportamentais e 21% para Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

A pesquisa avança ao identificar os mecanismos que explicam parte significativa dessa associação. Fatores modificáveis, como a rotina de sono e, sobretudo, a atividade física, surgem como mediadores centrais. De acordo com os cálculos apresentados, a prática de exercícios físicos representa o fator de proteção mais influente, respondendo por até 39% da relação entre o tempo nos ecrãs e os problemas mentais. Horários de dormir irregulares foram responsáveis por 23,9% dos casos, enquanto a curta duração do sono explicou aproximadamente 7,24% dessa ligação.

“O que mais preocupa nesses resultados é a alta probabilidade de depressão”, observa a Dra. Hannah Nearney, psiquiatra clínica e diretora médica da Flow Neuroscience no Reino Unido. Ela chama a atenção para os desafios específicos do tratamento na infância e adolescência, uma dimensão que, em sua avaliação, o estudo deixa entrever mas não esgota. “Infelizmente, as alternativas não medicamentosas muitas vezes se limitam à psicoterapia, o que deixa uma lacuna na oferta de serviços e expõe crianças vulneráveis a um risco maior.”

O cenário de base descrito pelo trabalho é de normalização de um comportamento potencialmente nocivo. Quase uma em cada três crianças no conjunto de dados analisado já se enquadrava na categoria de uso excessivo. Paralelamente, o cumprimento das diretrizes de atividade física – pelo menos 60 minutos diários – é baixo, alcançado por apenas um quinto das crianças. A manutenção de uma rotina consistente de sono durante a semana escolar também é pouco comum, presente em apenas 25% dos casos.

Na visão de especialistas da Flow Neuroscience, empresa que desenvolveu o primeiro tratamento não medicamentoso e não invasivo para depressão aprovado pela FDA, essa conjuntura pode levar a um ciclo problemático. Crianças com sintomas derivados do excesso de tela podem acabar recebendo prescrições de antidepressivos com mais facilidade, diante das opções limitadas de intervenção apropriadas para a idade. Eles mencionam os riscos conhecidos, embora pequenos, de aumento da ideação suicida associados a alguns psicofármacos em jovens.

A expectativa é que alternativas como a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC ou tDCS), base do dispositivo da Flow, possam futuramente compor o arsenal terapêutico para essa faixa etária, embora atualmente não seja aprovada para menores de 18 anos nos Estados Unidos. “Esperamos que ferramentas como a estimulação cerebral se tornem disponíveis também para esses jovens”, comenta a Dra. Nearney. “Mas, enquanto isso, podemos seguir as sugestões de estudos como este, e não apenas evitar o tempo de tela, mas também regular os horários de sono e adicionar atividade física à rotina.”

O estudo, no fundo, reformula a discussão sobre saúde mental juvenil, colocando-a também como um desafio comportacional com raízes em hábitos diários. A implicação prática é clara: intervenções focadas em promover o movimento e a regularidade do sono podem atuar como amortecedores importantes contra os impactos psicológicos negativos do mundo digital.

PR/HN/MM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Humberto Alexandre Martins: “A profissão farmacêutica está em cada ato, independentemente do local”

Proximidade aos farmacêuticos, descentralização e formação contínua são os pilares do primeiro ano de mandato de Humberto Alexandre Martins à frente da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos. Em entrevista exclusiva, o presidente faz balanço do percurso, destaca visitas a ULS, o impacto das novas áreas formativas e anuncia avanços na articulação entre farmacêuticos e o SNS

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights