Tiago Gil Oliveira: “O diagnóstico precoce é o grande desafio na luta contra o Alzheimer”

02/10/2026
Em entrevista exclusiva ao HealthNews, o Professor Tiago Gil Oliveira, galardoado com o Prémio Bial de Medicina Clínica 2024, professor associado na Escola de Medicina da Universidade do Minho, neurorradiologista no Hospital de Braga e investigador no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS), fala sobre o prémio, a sua investigação pioneira e o futuro da luta contra as doenças neurodegenerativas.

HealthNews (HN) – Vencer o Prémio Bial de Medicina Clínica 2024 é um dos maiores reconhecimentos na medicina portuguesa. Em termos concretos, que aspetos da sua investigação sobre as regiões cerebrais diferencialmente afetadas pelo Alzheimer acredita que mais impressionaram o júri e que destacam a relevância clínica do trabalho premiado?

Tiago Gil Oliveira (TGO) – Primeiro de tudo sinto-me muito honrado com este reconhecimento que valorizou não só o meu trabalho de investigação, mas também o meu percurso enquanto médico e investigador. Em relação ao trabalho que tenho vindo a fazer ao longo dos anos penso que os aspetos mais diferenciadores terão sido o foco numa temática de grande relevância clínica e científica, dirigida ao estudo dos mecanismos subjacentes às doenças neurodegenerativas, e a originalidade de combinar diferentes metodologias e áreas do conhecimento.

HN – A sua obra vencedora combina neuropatologia, ressonância magnética e modelos animais. Como é que este Prémio valida a importância de uma abordagem multimodal e translacional como a sua para fazer avançar a compreensão de doenças complexas como o Alzheimer?

TGO – Uma das maneiras mais eficazes de inovarmos e descobrimos algo de realmente novo, e que tenha o potencial para mudar um paradigma científico, é abordar problemas na fronteira de várias áreas do conhecimento. Neste caso em particular usei uma estratégia simples, mas tirei o máximo partido de uma abordagem multidisciplinar partindo dos diagnósticos de doenças neurodegenerativas confirmados após a morte dos doentes e investigámos as apresentações clínicas e assinaturas imagiológicas ao nível da ressonância magnética cerebral para identificarmos as regiões diferencialmente afetadas nos diferentes subtipos de doenças neurodegenerativas. Sabendo quais são as regiões de cérebro mais afetadas podemos depois estudar como prevenir a neurodegeneração dessas regiões em modelos animais. O objetivo final será posteriormente desenvolvermos novas estratégias terapêuticas para os doentes.

HN – Um dos objetivos destacados pelo prémio é o caminho para um diagnóstico mais precoce. Qual é, na sua perspetiva, o potencial de transformação clínica mais imediato que este reconhecimento pode trazer ao seu trabalho de mapeamento cerebral?

TGO – A partir do momento que ocorre o processo de neurodegeneração torna-se mais difícil instituir estratégias terapêuticas que possam ter um impacto clínico relevante para os doentes. Logo, um dos grandes desafios do campo das doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer, passa por diagnosticar a doença o mais precocemente possível. A ressonância magnética, em conjunto com outras abordagens moleculares, tem um potencial enorme para contribuir para esse diagnóstico precoce e para o aumento do sucesso dos tratamentos para este grande grupo de doenças.

HN – O prémio ocorre num momento pivotal com a introdução de novas terapias. De que forma é que esta distinção pode amplificar o impacto do seu mapeamento de patologias cerebrais no desenvolvimento de uma medicina mais personalizada para a doença de Alzheimer?

TGO – Vivemos sem dúvida um momento histórico na abordagem da doença de Alzheimer, dado que foram recentemente disponibilizados na Europa, incluindo Portugal, os primeiros tratamentos com o potencial de mudar a evolução patológica da doença de Alzheimer, que apesar do impacto clínico modesto, são um primeiro grande passo para conseguirmos ter ainda mais ganhos clínicos. Neste contexto, o estudo destes doentes por ressonância magnética é já essencial para monitorizar os efeitos secundários que ocorrem com estes tratamentos, contribuindo para que este seja efetuado de um modo mais seguro. A investigação da minha equipa salienta a grande diversidade e complexidade das doenças neurodegenerativas e contribui para dar mais confiança no diagnóstico diferencial, para identificar diferentes subtipos de doenças neurodegenerativas que agora começamos a conhecer melhor com os avanços científicos recentes, e para escolher quais os doentes que poderão beneficiar de estratégias terapêuticas específicas. No fundo, este mapeamento cerebral contribui decisivamente para uma abordagem de medicina de precisão no tratamento dirigido de um modo mais específico a cada um dos doentes.

HN – O júri destacou a notável combinação entre ciência fundamental e prática clínica no seu trabalho. Sendo médico e investigador, que significado pessoal e profissional tem para si receber um prémio que, por tradição, valoriza exatamente esta ponte essencial para o progresso da medicina?

TGO – Combinar uma carreira científica, académica e clínica é um desafio especialmente difícil de cumprir em Portugal, porque não há tradição, nem estrutura institucional para apoiar este tipo de carreira combinada. Vejo muito talento nos nossos hospitais e unidades de cuidados de saúde por todo o país, com vários médicos que têm conhecimento e experiência científica, mas que não conseguem pôr em prática tudo o que sabem por falta de condições. Para eu ter conseguido juntar todas estas vertentes no meu trabalho foi sendo dúvida com grande sacrifício pessoal, sem garantia que o trabalho tivesse este tipo de reconhecimento. Logo, apesar de ser uma grande motivação ver o trabalho reconhecido, o meu maior prémio é ver agora o sucesso das pessoas que já foram aprendendo comigo e com as quais eu também continuo a aprender imenso. Além disso, espero que este prémio seja um ponto de partida para que se crie em Portugal não só uma carreira específica para os médicos-investigadores, mas também programas de financiamento para projetos translacionais entre os hospitais e os centros de investigação fundamental.

HN – Para além do reconhecimento académico, que oportunidades concretas espera que este Prémio Bial lhe possa abrir, tanto a nível nacional como internacional, para acelerar a aplicação prática das suas descobertas?

TGO – Confesso que fiquei positivamente impressionado com a visibilidade nacional e internacional do Prémio Bial. Embora o meu trabalho já fosse reconhecido no nicho de clínicos e investigadores dedicados às doenças neurodegenerativas, com este reconhecimento mais alargado sinto que começou a haver um maior interesse de investigadores de outras áreas do conhecimento e também da população em Portugal. Como consequência estou já a colaborar em projetos internacionais ainda mais multidisciplinares, com recurso às novas abordagens de análise de grandes quantidades de dados, e a nível da população espero que haja uma maior atenção para motivar o investimento em inovação nas doenças neurodegenerativas, tal como foi feito para o cancro.

HN – Atingir um patamar que merece o Prémio Bial de Medicina Clínica é um marco na carreira de qualquer investigador. Olhando para o futuro, como é que esta distinção molda ou fortalece os seus próximos objetivos na luta contra a doença de Alzheimer?

TGO – Hoje estamos mais perto de termos tratamentos mais eficazes não só para a doença de Alzheimer, mas também para outras doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson ou a esclerose lateral amiotrófica. Globalmente é um momento de esperança na comunidade científica e que motiva a mais pessoas trabalharem nestas áreas. Mais localmente, sinto que este prémio motivou imenso todos os elementos da minha equipa, porque foi uma valorização não só pessoal, mas também de todo o trabalho que estamos a fazer. Espero também que haja um contágio de conseguirmos ter os investigadores mais talentosos de Portugal a trabalhar nestas áreas do conhecimento, e quem sabe até poderemos ter um instituto de investigação dedicado ao estudo das doenças neurodegenerativas. Quando juntamos pessoas com talento, criatividade e competências complementares acredito que as soluções para os problemas dos doentes poderão ser encontradas. No meu caso, espero continuar a contribuir não só para o crescimento científico da minha equipa, mas também da comunidade que se dedica em Portugal ao estudo destas doenças desafiantes.

Nota da Redação: O Prémio Bial de Medicina Clínica, que distinguiu o trabalho do Professor Tiago Gil Oliveira em 2024, tem atualmente abertas as candidaturas para a sua edição de 2026. O prazo para submissão de candidaturas termina a 31 de agosto de 2026. Para mais informações sobre o prémio e o processo de candidatura, consulte: https://www.fundacaobial.com/premios/premio-bial-de-medicina-clinica

HealthNews

 

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