Fábio Simões: Médico Interno de Saúde Pública | Unidade Local de Saúde Amadora/Sintra; Celene Neves: Médica Assistente Graduada de Saúde Pública | Unidade Local de Saúde Amadora/Sintra

A Tuberculose continua a ser um problema em Portugal?

02/11/2026

A Tuberculose (TB) é uma doença prevenível e frequentemente curável. Apesar disso, mais de 10 milhões de pessoas adoecem anualmente com TB. É responsável por mais de 1 milhão de mortes, significando que é a maior causa de morte por um único agente infecioso e uma das 10 principais causas de morte a nível mundial. É urgente agir para acabar com a epidemia global de TB em 2030. Trata-se de um objetivo adotado por todos os Estados-Membros das Nações Unidas e da Organização Mundial da Saúde.¹⁻³

A TB continua a ser um problema relevante em Portugal, país que continua a apresentar valores superiores à média da União Europeia.⁴,⁵ Em 2023, a taxa de incidência de TB em Portugal foi de 13,7 por 100 mil habitantes.⁶

A TB é causada por bactérias pertencentes ao Complexo Mycobacterium tuberculosis (MTBC), o qual integra espécies geneticamente próximas, como Mycobacterium tuberculosis (MT), M. africanum e M. bovis. Estas micobactérias apresentam um elevado grau de adaptação ao hospedeiro humano e partilham determinantes moleculares de virulência que lhes conferem a capacidade de provocar infeção latente e doença ativa. MT é a espécie mais frequentemente isolada em casos humanos de tuberculose.⁷,⁸

Estima-se que cerca de um quarto da população mundial foi infetada com MT, na sua forma latente.⁹ Depois da infeção, o risco de desenvolver TB é maior nos 2 primeiros anos (cerca de 5%).¹⁰ Algumas pessoas conseguem eliminar a infeção por MT.¹¹,¹² Esta doença afeta principalmente os pulmões, no entanto pode também afetar outros órgãos.³

Os principais sintomas de TB são tosse, cansaço, emagrecimento, suores noturnos e febre ao fim do dia. A transmissão faz-se por via inalatória.¹³

Após inalação dos bacilos da TB, os contactos podem ficar infetados (infeção latente). Nesta situação, o indivíduo está saudável, não tendo qualquer sintoma nem sendo contagioso. O risco de desenvolvimento de TB, face à infeção, é maior nos indivíduos em situação de imunossupressão.¹³,¹⁴

Tratamento

A escolha dos fármacos usados no tratamento depende de vários fatores, nomeadamente do facto de se tratar de infeção latente ou TB; ser o primeiro tratamento ou retratamento; e da suscetibilidade aos fármacos. É fundamental tomar toda a medicação durante o tempo estabelecido, mesmo que se melhore antes.¹³,¹⁴

Como evitar o contágio?

O doente com tuberculose das vias aéreas deve evitar lugares públicos. Se for impossível, deve usar máscara.

Deixa, regra geral, de ser contagioso nas primeiras semanas após o início da medicação. Porém, a certeza da cessação do risco de transmissão só é conseguida através da repetição da análise de expetoração, com resultado negativo.

Se estivermos atentos, podemos identificar precocemente os sinais e sintomas de TB, nas pessoas que nos rodeiam ou em nós próprios. Perante a suspeita de TB o doente deve contactar a Linha SNS 24 (808 24 24 24). Todos podemos ser agentes de saúde pública!


Referências

  1. United Nations. Sustainable Development [Internet]. [citado 21 de Novembro de 2025]. Disponível em: https://sdgs.un.org/

  2. World Health Assembly. Global strategy and targets for tuberculosis prevention, care and control after 2015 (Resolution WHA67.1, Agenda item 12.1). Geneva; 2014.

  3. World Health Organization. Global tuberculosis report 2025. Geneva; 2025.

  4. Global Burden of Disease Collaborative Network. Global Burden of Disease Study 2023 (GBD 2023). Seattle, United States: Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME); 2025.

  5. Hay SI, Ong KL, Santomauro DF, A B, Aalipour MA, Aalruz H, et al. Burden of 375 diseases and injuries, risk-attributable burden of 88 risk factors, and healthy life expectancy in 204 countries and territories, including 660 subnational locations, 1990–2023: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. The Lancet [Internet]. Outubro de 2025;406(10513):1873–922. Disponível em: https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S014067362501637X

  6. Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde. Relatório de Vigilância e Monitorização da Tuberculose em Portugal: Dados 2023 [Internet]. Lisboa; 2025. Disponível em: www.dgs.pt

  7. Gagneux S. Ecology and evolution of Mycobacterium tuberculosis. Vol. 16, Nature Reviews Microbiology. Nature Publishing Group; 2018. p. 202–13.

  8. Bayraktar B, Bulut E, Bariş AB, Toksoy B, Dalgic N, Celikkan C, et al. Species distribution of the Mycobacterium tuberculosis complex in clinical isolates from 2007 to 2010 in Turkey: A prospective study. J Clin Microbiol. Novembro de 2011;49(11):3837–41.

  9. Houben RMGJ, Dodd PJ. The Global Burden of Latent Tuberculosis Infection: A Re-estimation Using Mathematical Modelling. PLoS Med. 1 de Outubro de 2016;13(10).

  10. Menzies NA, Wolf E, Connors D, Bellerose M, Sbarra AN, Cohen T, et al. Progression from latent infection to active disease in dynamic tuberculosis transmission models: a systematic review of the validity of modelling assumptions. Lancet Infect Dis [Internet]. 1 de Agosto de 2018;18(8):e228–38. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S1473-3099(18)30134-8

  11. Behr MA, Edelstein PH, Ramakrishnan L. Is Mycobacterium tuberculosis infection life long? BMJ [Internet]. 24 de Outubro de 2019;367:15770. Disponível em: https://www.bmj.com/content/367/bmj.15770.abstract

  12. Emery JC, Richards AS, Dale KD, McQuaid CF, White RG, Denholm JT, et al. Self-clearance of Mycobacterium tuberculosis infection: Implications for lifetime risk and population at-risk of tuberculosis disease. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. 27 de Janeiro de 2021;288(1943).

  13. Material de divulgação do Programa Nacional para a Tuberculose da Direção-Geral da Saúde [Internet]. [citado 6 de Fevereiro de 2026]. Disponível em: https://www.dgs.pt/tuberculose/materiais-de-divulgacao.aspx

  14. Carvalho I, Silva A, Silva S, Pinto B, Carvalho C, Ribeiro N, et al. Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde. Manual de Tuberculose: Recomendações [Internet]. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2025. Disponível em: www.dgs.pt

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