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As doenças cérebro e cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade no país, mas os dados revelam progressos consistentes na vigilância clínica e na gestão dos fatores de risco, em particular após a recuperação da atividade assistencial no período pós-pandemia.
De acordo com o Sistema de Informação e Monitorização do Serviço Nacional de Saúde a taxa de utilização dos cuidados médicos primários aumentou ligeiramente entre 2015 e 2024, abrangendo 69,4% da população inscrita. As regiões Norte e Centro destacam-se com os níveis mais elevados de contacto com estas unidades, enquanto a pandemia de COVID-19 provocou uma quebra temporária no acesso, seguida de uma recuperação robusta a partir de 2021, que permitiu consolidar novamente a atividade dos cuidados de saúde primários.
Os cuidados de saúde primários assumem-se como a primeira linha na identificação e controlo dos principais fatores de risco associados às doenças cérebro e cardiovasculares, nomeadamente a hipertensão arterial, a diabetes mellitus, a dislipidemia e o tabagismo. Entre 2015 e 2024, a proporção de utentes com diagnóstico de hipertensão arterial aumentou de 20,8% para 23,7%, refletindo uma maior capacidade de deteção. Em paralelo, registaram-se melhorias significativas na monitorização e no controlo da pressão arterial, com um aumento da percentagem de doentes com registos semestrais e uma evolução expressiva do controlo tensional efetivo, que passou de 36,7% para 58,9% nos adultos hipertensos mais jovens.
No que respeita à diabetes, uma patologia estreitamente associada ao risco cardiovascular, a incidência manteve-se relativamente estável ao longo da década, com uma ligeira recuperação após o período pandémico. A monitorização da hemoglobina glicada, indicador fundamental para o controlo metabólico e prevenção de complicações cardiovasculares, registou progressos relevantes, com mais de 70% dos doentes diabéticos a realizarem determinações semestrais, traduzindo um reforço do acompanhamento clínico e da vigilância nos cuidados de saúde primários.
A dislipidemia apresentou uma redução da incidência até 2020, seguida de uma retoma expressiva no período pós-pandemia. Esta evolução é acompanhada por um reforço dos rastreios laboratoriais e pela otimização da terapêutica medicamentosa. Em paralelo, o registo sistemático do tabagismo diminuiu cerca de 20% ao longo da década, evidenciando o impacto das políticas de cessação tabágica e a expansão das consultas dedicadas nos cuidados de saúde primários.
Relativamente às patologias cardiovasculares crónicas, observa-se uma tendência ligeiramente crescente no registo de doença cardíaca isquémica, ao mesmo tempo que se verifica uma redução na incidência de novos enfartes agudos do miocárdio e de acidentes vasculares cerebrais. Estes dados apontam para um impacto positivo das intervenções de prevenção primária e secundária desenvolvidas no âmbito dos cuidados de saúde primários.
Apesar dos avanços registados, o relatório identifica desafios persistentes, sobretudo no que diz respeito às desigualdades regionais. As regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve apresentam níveis inferiores de monitorização e controlo dos fatores de risco, enquanto o Norte e o Centro lideram em vários indicadores de vigilância clínica. Estas assimetrias refletem diferenças na organização dos serviços, na acessibilidade, no envolvimento das equipas de saúde e na disponibilidade de recursos, apontando para a necessidade de estratégias regionais adaptadas que promovam maior equidade no acesso e na qualidade dos cuidados.
O documento destaca ainda que a integração incompleta dos dados laboratoriais e clínicos entre os cuidados de saúde primários e os hospitais continua a limitar a continuidade dos cuidados e a monitorização eficaz dos doentes. A promoção da literacia em saúde e o reforço da adesão terapêutica são identificados como prioridades essenciais para consolidar os ganhos alcançados e reduzir a morbimortalidade associada às doenças cérebro e cardiovasculares.
O relatório conclui que os cuidados de saúde primários constituem a espinha dorsal da estratégia nacional para a redução do impacto das doenças cérebro e cardiovasculares em Portugal. A melhoria sustentada dos indicadores clínicos e a recuperação da atividade após a pandemia evidenciam a maturidade do sistema e a sua capacidade de resposta, sendo o fortalecimento dos cuidados de saúde primários, aliado à inovação tecnológica e à coordenação integrada dos cuidados, determinante para enfrentar os desafios futuros de forma equitativa e sustentável.
Fonte: “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)” DGS
DGS/HN/AL



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