Ganhos na saúde cardiovascular não chegam de forma igual a todas as regiões

11 de Fevereiro 2026

Portugal regista avanços significativos na redução da mortalidade e na melhoria do tratamento das doenças cérebro e cardiovasculares ao longo da última década, mas a persistência de desigualdades regionais no acesso a cuidados especializados e nos resultados clínicos continua a ser um desafio crítico, sobretudo nas regiões do Alentejo, Algarve e Açores.

Esta problemática reflete-se em diversos indicadores que apontam para diferenças marcadas na taxa de internamento, letalidade hospitalar e capacidade de resposta dos serviços de saúde.

Nos internamentos por doenças cerebrovasculares, observa-se que as regiões autónomas dos Açores e da Madeira apresentam as taxas mais elevadas, com 448,9 e 260,7 casos por 100.000 habitantes, respetivamente, enquanto o Algarve apresenta a taxa mais baixa, com 199,1 por 100.000 habitantes. Apesar da redução global da mortalidade hospitalar padronizada, estas regiões evidenciam disparidades que requerem intervenção focalizada para garantir equidade na prestação de cuidados.

A insuficiência cardíaca, uma das principais causas de morbilidade, apresenta também um cenário preocupante. A taxa de letalidade hospitalar mais elevada verifica-se no Algarve (19,0%) e no Alentejo (15,8%), contrastando com valores inferiores em Lisboa e Vale do Tejo (11,4%) e no Centro (12,1%). Estas diferenças sugerem um impacto negativo das limitações estruturais, da menor disponibilidade de recursos hospitalares especializados e da maior prevalência de comorbilidades nestas regiões.

Na doença da artéria aorta, a letalidade hospitalar revela uma heterogeneidade geográfica significativa, com taxas mais elevadas na Região Autónoma da Madeira (30,9%) e no Algarve (23,9%), enquanto no Alentejo (10,2%) e nos Açores (11,3%) os valores são substancialmente mais baixos. Esta variação pode refletir diferenças no acesso a unidades hospitalares diferenciadas, na experiência clínica e na capacidade de resposta em situações agudas.

O tromboembolismo pulmonar evidencia um padrão semelhante, com as regiões do Algarve (≈15%) e do Alentejo (≈14%) a apresentarem os valores mais elevados de letalidade hospitalar, enquanto Lisboa e Vale do Tejo e Norte registam valores mais baixos (≈9–10%). Estas diferenças podem resultar da variabilidade na experiência das equipas, disponibilidade dos cuidados intensivos e rapidez diagnóstica.

Na doença arterial periférica, as Regiões Autónomas dos Açores apresentam a maior taxa de internamento padronizada (acima da taxa nacional), assim como a maior taxa de mortalidade hospitalar (5,5 por 100.000 habitantes), seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo. Esta situação parece estar mais associada ao perfil demográfico das populações e ao elevado número de casos críticos com múltiplas comorbilidades, do que a discrepâncias estruturais na prestação dos cuidados. Ainda assim, a taxa de amputação, indicador chave de qualidade, mantém-se relativamente elevada, especialmente nas regiões do Algarve, Alentejo e Lisboa, refletindo desafios no diagnóstico precoce e na integração dos cuidados vasculares.

No domínio da endocardite infeciosa, a Região Autónoma dos Açores destaca-se com a taxa de mortalidade hospitalar mais elevada (1,7 casos por 100.000 habitantes), superior a todas as outras regiões, enquanto o Alentejo e o Algarve apresentam as taxas mais baixas. Este contraste poderá estar relacionado com atrasos no diagnóstico, diferenças nos protocolos de tratamento e desafios específicos das populações insulares que requerem investigação adicional.

As desigualdades estendem-se também aos Cuidados de Saúde Primários, fundamentais na prevenção e controlo das doenças cardiovasculares. Embora haja um aumento global na taxa de utilização dos cuidados primários e melhoria em indicadores como o controlo da hipertensão arterial e do diabetes mellitus, persistem variações regionais significativas que impactam a eficácia da prevenção e gestão clínica.

O relatório sublinha que a equidade no acesso a cuidados especializados e a uniformização da qualidade assistencial são imperativos para a sustentabilidade do sistema de saúde e para garantir que os ganhos alcançados se traduzam em benefícios reais para toda a população. Para tal, destaca a necessidade de reforçar a capacidade hospitalar, implementar redes integradas de cuidados, desenvolver protocolos padronizados e promover a monitorização contínua dos resultados clínicos, com especial atenção às regiões do Alentejo, Algarve e Açores.

Fonte: “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)” DGS

DGS/HN/AL

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

Cem anos de medicina no feminino celebrados em Coimbra

A Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos promove no dia 12 de março, pelas 18h30, uma tertúlia e inauguração de exposição que assinalam o centenário da presença feminina na medicina em Portugal, num evento híbrido com transmissão online a partir da Sala Miguel Torga, em Coimbra

“Epidemia silenciosa”: distúrbios do sono afetam 800 mil crianças em Portugal

No Dia Mundial do Sono, assinalado esta sexta-feira, dados revelam que cerca de 30% das crianças portuguesas enfrentam dificuldades para dormir, estimando-se que 40% apresentem distúrbios associados a hábitos precocemente consolidados. A coordenadora da Pós-graduação em Sono da Criança, Adolescente e Família, Joana Marques, classifica a situação como um problema de saúde pública negligenciado, com impacto direto na aprendizagem, memória e atenção dos mais novos. “O sono infantil não é um detalhe de rotina, é um pilar essencial para o desenvolvimento neurocognitivo e emocional”, sublinha, acrescentando que dormir mal pode potenciar obesidade, diabetes e alterações de comportamento. A privação de sono afeta também a saúde mental dos pais, limitando a capacidade de resposta ao stresse

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights