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Esta problemática reflete-se em diversos indicadores que apontam para diferenças marcadas na taxa de internamento, letalidade hospitalar e capacidade de resposta dos serviços de saúde.
Nos internamentos por doenças cerebrovasculares, observa-se que as regiões autónomas dos Açores e da Madeira apresentam as taxas mais elevadas, com 448,9 e 260,7 casos por 100.000 habitantes, respetivamente, enquanto o Algarve apresenta a taxa mais baixa, com 199,1 por 100.000 habitantes. Apesar da redução global da mortalidade hospitalar padronizada, estas regiões evidenciam disparidades que requerem intervenção focalizada para garantir equidade na prestação de cuidados.
A insuficiência cardíaca, uma das principais causas de morbilidade, apresenta também um cenário preocupante. A taxa de letalidade hospitalar mais elevada verifica-se no Algarve (19,0%) e no Alentejo (15,8%), contrastando com valores inferiores em Lisboa e Vale do Tejo (11,4%) e no Centro (12,1%). Estas diferenças sugerem um impacto negativo das limitações estruturais, da menor disponibilidade de recursos hospitalares especializados e da maior prevalência de comorbilidades nestas regiões.
Na doença da artéria aorta, a letalidade hospitalar revela uma heterogeneidade geográfica significativa, com taxas mais elevadas na Região Autónoma da Madeira (30,9%) e no Algarve (23,9%), enquanto no Alentejo (10,2%) e nos Açores (11,3%) os valores são substancialmente mais baixos. Esta variação pode refletir diferenças no acesso a unidades hospitalares diferenciadas, na experiência clínica e na capacidade de resposta em situações agudas.
O tromboembolismo pulmonar evidencia um padrão semelhante, com as regiões do Algarve (≈15%) e do Alentejo (≈14%) a apresentarem os valores mais elevados de letalidade hospitalar, enquanto Lisboa e Vale do Tejo e Norte registam valores mais baixos (≈9–10%). Estas diferenças podem resultar da variabilidade na experiência das equipas, disponibilidade dos cuidados intensivos e rapidez diagnóstica.
Na doença arterial periférica, as Regiões Autónomas dos Açores apresentam a maior taxa de internamento padronizada (acima da taxa nacional), assim como a maior taxa de mortalidade hospitalar (5,5 por 100.000 habitantes), seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo. Esta situação parece estar mais associada ao perfil demográfico das populações e ao elevado número de casos críticos com múltiplas comorbilidades, do que a discrepâncias estruturais na prestação dos cuidados. Ainda assim, a taxa de amputação, indicador chave de qualidade, mantém-se relativamente elevada, especialmente nas regiões do Algarve, Alentejo e Lisboa, refletindo desafios no diagnóstico precoce e na integração dos cuidados vasculares.
No domínio da endocardite infeciosa, a Região Autónoma dos Açores destaca-se com a taxa de mortalidade hospitalar mais elevada (1,7 casos por 100.000 habitantes), superior a todas as outras regiões, enquanto o Alentejo e o Algarve apresentam as taxas mais baixas. Este contraste poderá estar relacionado com atrasos no diagnóstico, diferenças nos protocolos de tratamento e desafios específicos das populações insulares que requerem investigação adicional.
As desigualdades estendem-se também aos Cuidados de Saúde Primários, fundamentais na prevenção e controlo das doenças cardiovasculares. Embora haja um aumento global na taxa de utilização dos cuidados primários e melhoria em indicadores como o controlo da hipertensão arterial e do diabetes mellitus, persistem variações regionais significativas que impactam a eficácia da prevenção e gestão clínica.
O relatório sublinha que a equidade no acesso a cuidados especializados e a uniformização da qualidade assistencial são imperativos para a sustentabilidade do sistema de saúde e para garantir que os ganhos alcançados se traduzam em benefícios reais para toda a população. Para tal, destaca a necessidade de reforçar a capacidade hospitalar, implementar redes integradas de cuidados, desenvolver protocolos padronizados e promover a monitorização contínua dos resultados clínicos, com especial atenção às regiões do Alentejo, Algarve e Açores.
Fonte: “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)” DGS
DGS/HN/AL



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