Medicamentos cardiovasculares pressionam despesa do SNS e orçamento das famílias

11 de Fevereiro 2026

O encargo do Serviço Nacional de Saúde (SNS) com medicamentos destinados ao tratamento das doenças do aparelho circulatório aumentou cerca de 41% entre 2015 e 2024, passando de 357 milhões de euros para aproximadamente 505 milhões de euros, segundo um relatório hoje divulgado.

De acordo com o relatório da Direção-Geral da Saúde, este crescimento resulta da evolução demográfica, do aumento da prevalência de doenças cardiovasculares crónicas e do alargamento das opções terapêuticas disponíveis, com particular incidência nas áreas da hipertensão arterial, dislipidemia e insuficiência cardíaca.

O documento “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)”, a que a Lusa teve acesso, indica que a farmácia comunitária concentra a esmagadora maioria da despesa, representando cerca de 92 a 93% do total, uma estrutura que se manteve estável ao longo da última década.

Em 2024, os medicamentos cardiovasculares dispensados em farmácia comunitária representaram um custo de cerca de 466 milhões de euros para o SNS, enquanto os medicamentos hospitalares corresponderam a 38,8 milhões de euros, o equivalente a 7,6% da despesa total neste grupo terapêutico.

Apesar da relativa estabilidade do peso da despesa hospitalar, o relatório refere que a tendência de crescimento global tem sido constante, com apenas pequenas flutuações entre 2018 e 2020. O aumento mais acentuado ocorreu a partir de 2021, coincidindo com a recuperação da atividade assistencial no período pós-pandemia e com a introdução de terapêuticas inovadoras, nomeadamente na insuficiência cardíaca e na prevenção secundária.

A análise de longo prazo identifica dois fenómenos complementares: a progressiva substituição terapêutica por fármacos mais recentes, com maior custo unitário, como os inibidores da SGLT2, o sacubitril-valsartan ou os anticoagulantes orais diretos, e o envelhecimento populacional associado ao aumento da cronicidade, que prolonga a duração média dos tratamentos e aumenta o número de doentes medicados.

Segundo o relatório, os medicamentos para as doenças cérebro-cardiovasculares continuam a ser um dos principais determinantes da despesa farmacêutica pública, representando uma das maiores parcelas do total de medicamentos comparticipados pelo SNS. O documento sublinha a importância de otimizar a prescrição e reforçar a adesão terapêutica, de forma a garantir que o aumento do investimento se traduza em ganhos efetivos em saúde e na redução de eventos agudos evitáveis.

O relatório do Programa Nacional para as Doenças Cérebro e Cardiovasculares destaca ainda que a comparticipação maioritária destes medicamentos nos escalões B ou C tem um impacto relevante no orçamento das famílias. Nesse contexto, é defendida a reclassificação para escalão A dos medicamentos genéricos essenciais ao controlo da hipertensão arterial e da dislipidemia, considerando que essa medida permitiria melhorar a equidade no acesso e potenciar a eficiência da despesa pública.

O documento evidencia também o peso das doenças do aparelho circulatório nos internamentos hospitalares e na despesa direta em saúde. Entre 2017 e 2024, foram faturados 810.776 episódios de internamento com diagnóstico principal neste grupo de doenças, correspondendo a um custo acumulado de cerca de 2,85 mil milhões de euros para o SNS.

No mesmo período, registou-se uma redução sustentada do número de episódios de internamento, na ordem dos 20,3%, mas apenas uma diminuição pouco significativa do custo total, de 5,6%. Esta discrepância reflete um aumento progressivo do custo médio por internamento, que passou de 3.210 euros em 2017 para mais de 3.800 euros em 2024, um crescimento de 18,3%, com tendência ascendente desde 2020.

Segundo o relatório, este comportamento sugere um aumento do perfil de gravidade clínica dos doentes internados e uma maior intensidade no consumo de recursos diagnósticos e terapêuticos, sobretudo nos contextos de insuficiência cardíaca, síndromes coronárias agudas e doenças cerebrovasculares, sendo também um indicador do envelhecimento populacional e da crescente complexidade clínica associada a estas patologias.

lusa/HN/AL

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