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A expressão saiu-lhe sem filtro, quase num rompante. “Desculpem-me, mas eles não são carne para canhão.” Carlos Cortes não escondia a irritação. Sentado perante os deputados da Comissão de Saúde, o bastonário da Ordem dos Médicos elencava dados, gráficos, visitas a hospitais. Mas o que ficou foi essa imagem: corpos novos a tapar buracos de um sistema exausto. Nos corredores do parlamento, alguns funcionários comentavam em voz baixa. Um deputado pediu para repetir a expressão. Cortes repetiu. Sem hesitar.
A questão, explicou depois, não é apenas a sobrecarga dos internos. É o efeito dominó que essa pressão exerce sobre todo o edifício formativo. A urgência tornou-se uma espécie de sorvedouro: 40 por cento dos casos, insistiu, não são emergências, mas o SNS continua a canalizar para ali a maioria dos recursos. Os jovens médicos chegam ao internato com expectativas e saem, muitos deles, a evitar especialidades como Medicina Interna. Não por falta de vocação. Por falta de condições.
“O SNS precisa de especialistas, não de médicos sem diferenciação”, atirou. A frase, dita em resposta a um deputado do PS, fez silenciar a sala. Ao lado, os assessores trocavam apontamentos. Cortes sabia que estava a falar para além da bolha corporativa. Referiu o aumento das vagas — de 1680 em 2017 para 2335 no presente ano —, o maior número de sempre, e fez questão de sublinhar o paradoxo: mais lugares de internato não significam melhores especialistas se a formação for canibalizada pela assistência direta.
A Ordem, garantiu, não está refém da estatística. Tem feito visitas regulares aos serviços para aferir a qualidade da formação e evitar decisões abruptas de descredenciamento. “Mais do que retirar idoneidade, é importante ajudar a resolver a situação”, afirmou, citando o trabalho desenvolvido no Hospital Amadora-Sintra. Ali, a equipa da OM acompanhou de perto o esforço para reter especialistas seniores e, assim, preservar a capacidade formativa. Não se tratou de brandura reguladora, disse. Foi pragmatismo. “É um dever de responsabilidade e até de cidadania.”
A certa altura, Cortes afastou-se ligeiramente do tom institucional. Falou das noites em urgências mal dimensionadas, do cansaço que já não disfarçava nos mais velhos e do desalento que começa a instalar-se entre os internos. “Assistimos a mudanças no SNS, nos últimos anos, com maior pressão e maior foco na parte assistencial, e isso tem consequências sobre a formação médica.” Não era um lamento, fez questão de frisar. Era um aviso.
Os deputados ouviram. Alguns tomaram notas. Outros folheavam os documentos entretanto distribuídos pela Ordem. A meio da audição, um membro do PCP perguntou se o bastonário considerava haver um plano deliberado de desinvestimento no SNS. Cortes esquivou-se: falou antes em desorientação estratégica. Mais à frente, voltaria à expressão inicial. Os internos, insistiu, não podem continuar a ser atirados para a primeira linha como quem tapa buracos numa barragem a ceder.
Do lado de fora, o trânsito na Avenida Dom Carlos I fluía indiferente. Dentro da sala, o bastonário guardou os gráficos, agradeceu e saiu sem acrescentar muito mais. Alguns jornalistas correram atrás. Queriam uma declaração extra, um desabafo. Cortes limitou-se a repetir que a situação é conhecida e que faltará, acima de tudo, a tal coragem política. Depois entrou no carro e desapareceu na rotunda.
NR/HN(Lusa



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